video game I.

By bic azul

Já era a segunda vez que Guilherme lustrava o sapato e se encarava no espelho. Conferia cada detalhe e sempre acabava olhando para o relógio.

Acertou o nó da gravata (que nada tinha de errado) e vestiu o terno. Apenas um dos três botões foi fechado.

Fez um sinal com a mão e foi prontamente atendido por um rapaz que discretamente protegeu o traje de Guilherme com uma capa e só então buscou uma cadeira.

Guilherme se sentou e o rapaz iniciou o procedimento. Como o rapaz tinha movimentos leves e suaves, Guilherme mal percebeu quando este aproximou sua mesa de instrumentos.

Curioso, Guilherme quebrou o silêncio:

_ Qual é seu nome?

Recebeu pelo espelho um olhar de reprovação por aquela que parecia a mais inadequada das atitudes. Mas, ao menos, obteve alguma resposta:

_ Neste ramo, evitamos nomes ou qualquer outra referência que posso levar um de nós ao outro. Só o fato de você conhecer o meu padrão vocal já vai me dar a maior dor de cabeça… – meneou a cabeça enquanto pegou uma espécie de pincel e ordenou – Feche os olhos.

Guilherme obedeceu e lamentou:

_ Me desculpe. É que num momento desses a gente…

_ Não tem problema. Infelizmente isso é muito, muito comum. Agora relaxe e feche a boca.

O rapaz aplicou rapidamente um pincel sobre seus lábios cerrados e, em seguida, um maior e mais macio sobre todo o rosto. Porém usando outra substância.

_ Você está certo de que ninguém…

_ Estou. Somos profissionais. A substância reage apenas à sua pele. Fizemos a lição de casa.

O rapaz se afastou e só então Guilherme soube que poderia abrir os olhos. Mas mal pode acreditar neles, quando se olhou no espelho:

_ Impressionante.

Aproveitou para olhar o relógio mais uma vez. Levantou-se e retirou a capa. Analisou o traje uma última vez no espelho, evitando olhar seu rosto e também suas mãos. Ficou surpreso ao ser indagado.

_ Então… como soube de nós?

_ Um de meus devedores.

_ Oh!

_ Fique tranqüilo. – amenizou – Vocês não falharam, apenas deveriam escolher melhor os seus clientes.

_ Como?

_ O idiota não devia só pra mim. Acabaram percebendo que ele vinha ver a família freqüentemente. Acabou morto pela saudade.

_ …

_ Seria poético se não fosse estúpido.

_ Então ele…

_ Não teve tempo de dizer nada. Dois homens, um tiro, nenhuma chance. Foi só ligar os pontos. Ele não era bom o suficiente para fazer isso sozinho.

_ Parabéns pela perspicácia.

_ Obrigado.

Guilherme não percebeu quando o rapaz apanhou uma seringa sobre a mesma mesa. Não usou muito do conteúdo da ampola.

_ Durma, Guilherme. Ressuscitaremos você antes do terceiro dia.

_ O que está dizendo?

_ Tenha uma boa noite.

Antes de sucumbir em silêncio, Guilherme olhou uma última vez para o relógio. Certamente, não ouviu quando o rapaz disse:

_ Hora do óbito: 14h37.

(continua…)

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8 Respostas para “video game I.”

  1. Israel Disse:

    Tá uma coisa que não se lê todo dia!

    Muito legal, você está cada vez melhor cara!

    Até mais!

  2. Duas Disse:

    vou passar o fim de semana curiosa :(

    obrigada pela visitas! muito bom seus textos.

    beijo,
    elisa

  3. uma pessoa aleatória Disse:

    vou passar o fim de semana curiosa :( [2]

    hahahaha

    e olha que cheguei aqui aleatoriamente (y)

  4. uma pessoa aleatória Disse:

    deus do céu, que medo !!

    acredite se quiser, mas só vi teu comentário no meu blog agora, DEPOIS de comentar aqui ! :o

    “as coincidências fazem parecer uma homenagem.” – quanta verdade…

  5. liadrumond Disse:

    Ah, eu adoro contos assim… Adoro! Que será que vai acontecer agora que o Guilherme já morreu? Goood! Very Goooood!

  6. Thahy Disse:

    Já falei que te amo, né meu querido?!

    Poxa bic! q maldade fazer-nos esperar! Aff…

  7. Marcela Ortolan Disse:

    Gostei demais do texto! (só para variar)

    Estou mudando os teus links…

    ah, ótima escolha o wordpress…

    beijos

  8. Edgard Disse:

    Porra Junior Cada vez melhor …. ja te falei isso!!!
    Não pare nunca …..
    abçs

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