só.
O raio de sol que atravessou a janela lhe tocou a face, fazendo suas pálpebras se contraírem.
Era tarde de sábado, no outono.
A temperatura quente e agradável desmentiu a previsão do tempo.
Ela fechou os olhos e não viu a escuridão, mas um vermelho vivo e belo.
Em outros tempos, estaria em seu carro, reclamando do trânsito. Anos atrás, no parque com as crianças, ou ainda antes, enfurnada por um dia inteiro num motel com o namorado.
Mas hoje, apenas se levantou e permaneceu ali.
Só sentindo que estava viva.
Só recordando.
Só.
Aquecida e longe da escuridão, ela se sentia segura.
Mas estava absolutamente só. A ponto de não poder ser alcançada pela alegria, tampouco pela tristeza.
Pensou que enfim tinha terminado a sua busca pelo que era verdadeiro e puro.
Era a sensação de apenas ser quem se é, e não dos sentimentos que se tem.
Ela se despiu e esperou. Não precisava mais daquelas roupas.
Sabia que os anos fariam o espelho ser-lhe cruel, mas isso já não importava. A casca não faria a menor diferença – era apenas a locomotiva de desejos e sensações. Não seria mais escrava deles.
Respirou fundo e esperou. O calor se foi.
A noite veio bela e cada estrela a observou com intimidade.
Então ela se despiu novamente, abandonando a carne.
Dos sentimentos, guardou para si apenas a curiosidade e um pouquinho de ansiedade.
Quis logo ver o que havia do outro lado.
Etiquetas: Alegria, Alma, Carne, Contos Absurdos, Crônicas do Cotidiano, Estrelas, morte, Outono, Pureza, Sentido da Vida, Sentimentos, sol, solidão, tristeza, Velhice
Maio 15, 2008 em 11:43 pm
Porra Hipolito..
Esse ficou duka!
curti muito…..
parabéns!
Maio 16, 2008 em 4:10 pm
Realmente..
“…locomotiva de desejos e sensações…”
é exatamente o que somos…
apenas transitando .. de vagão em vagão…
Perfeito … como sempre!!!
Bjuss !!
Maio 16, 2008 em 5:37 pm
nossa…
Maio 16, 2008 em 8:38 pm
Quero morrer assim, com a bela e sutil descrição de um poeta como você.
Parabéns pela maneira criativa de falar até mesmo sobre o que ninguém gosta de ouvir.
Maio 17, 2008 em 7:04 pm
Confesso que para mim a leitura se fez difícil devido à morte da minha mãe. Por causa da hidrocefalia estou um pouco cansada.
Você é super-dotado com o uso das palavras,
Maio 25, 2008 em 11:35 pm
Tão sutil e tão sensivel que a sensação que tenho ao ler sobre a morte, se distanciou e só ficou a poesia.
Bjos.
Maio 27, 2008 em 6:26 pm
olá.

obrigada pelo comentário e por todas as visitas lá no redatoras.
espero que não te desiluda, mas o texto não é autobiográfico. vem de observações mesmo
a propósito, bacana esse texto seu
beijos e continue visitando a gente, viu?
Maio 28, 2008 em 7:48 pm
Sempre surpreendente Bic.
Abandonar a casca e deixar a alma prosseguir.
Bjos.
Maio 31, 2008 em 1:20 pm
Profundo…deu-me a sensação de uma morte, porém muito tranquila e serena, no desprendimento do corpo com a alma.Bela descrição.Beijuuss
Junho 2, 2008 em 9:01 pm
Ui, que lindo!
Junho 3, 2008 em 6:25 pm
Cheguei pelo site das meninas, vim espiar mesmo. Gostei daqui! E do texto. E voltarei mais outras muitas vezes…
Junho 6, 2008 em 7:36 pm
sempre profundo…
e perfeito nos detalhes..
adoro suas letras.
;*
Junho 9, 2008 em 12:03 pm
Lindo, profundo e pacífico… senti uma paz tão grande ao ler, você não faz idéia! O texto é de uma beleza e sensibilidade que nos faz desejar ter uma morte assim!
Parabéns!
Beijos=*
Fê
http://www.escritoshumanos.zip.net
http://www.algumasobservacoes.blogpost.com
Junho 9, 2008 em 8:39 pm
Por vezes eu queria estar tão distante assim
beijo
Junho 12, 2008 em 5:15 pm
esse negócio de ler clarice lispector não podia realmente dar em coisa diferente…
Junho 12, 2008 em 7:06 pm
Não era sobre publicidade?
Entra aí no meu tb. Ele é sobre propaganda:
http://vamosfalarmal.wordpress.com/
Julho 16, 2008 em 6:23 pm
Volta!
Julho 24, 2008 em 6:50 pm
Consegui ver um roteiro inteiro aí.
Algo de dez minutos, mas um roteiro incrivel.