só.

By bic azul

O raio de sol que atravessou a janela lhe tocou a face, fazendo suas pálpebras se contraírem.

Era tarde de sábado, no outono.

A temperatura quente e agradável desmentiu a previsão do tempo.

Ela fechou os olhos e não viu a escuridão, mas um vermelho vivo e belo.

Em outros tempos, estaria em seu carro, reclamando do trânsito. Anos atrás, no parque com as crianças, ou ainda antes, enfurnada por um dia inteiro num motel com o namorado.

Mas hoje, apenas se levantou e permaneceu ali.

Só sentindo que estava viva.

Só recordando.

Só.

Aquecida e longe da escuridão, ela se sentia segura.

Mas estava absolutamente só. A ponto de não poder ser alcançada pela alegria, tampouco pela tristeza.

Pensou que enfim tinha terminado a sua busca pelo que era verdadeiro e puro.

Era a sensação de apenas ser quem se é, e não dos sentimentos que se tem.

Ela se despiu e esperou. Não precisava mais daquelas roupas.

Sabia que os anos fariam o espelho ser-lhe cruel, mas isso já não importava. A casca não faria a menor diferença – era apenas a locomotiva de desejos e sensações. Não seria mais escrava deles.

Respirou fundo e esperou. O calor se foi.

A noite veio bela e cada estrela a observou com intimidade.

Então ela se despiu novamente, abandonando a carne.

Dos sentimentos, guardou para si apenas a curiosidade e um pouquinho de ansiedade.

Quis logo ver o que havia do outro lado.

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19 Respostas para “só.”

  1. Marina Nina! Disse:

    Porra Hipolito..

    Esse ficou duka!
    curti muito…..

    parabéns!

  2. Fânny Disse:

    Realmente..
    “…locomotiva de desejos e sensações…”
    é exatamente o que somos…
    apenas transitando .. de vagão em vagão…

    Perfeito … como sempre!!!
    Bjuss !!

  3. thahy Disse:

    nossa…

  4. valéria Disse:

    Quero morrer assim, com a bela e sutil descrição de um poeta como você.
    Parabéns pela maneira criativa de falar até mesmo sobre o que ninguém gosta de ouvir.

  5. tina oiticica harris Disse:

    Confesso que para mim a leitura se fez difícil devido à morte da minha mãe. Por causa da hidrocefalia estou um pouco cansada.

    Você é super-dotado com o uso das palavras,

  6. Dedinhos Nervosos Disse:

    Tão sutil e tão sensivel que a sensação que tenho ao ler sobre a morte, se distanciou e só ficou a poesia.
    Bjos.

  7. val Disse:

    olá.
    obrigada pelo comentário e por todas as visitas lá no redatoras.
    espero que não te desiluda, mas o texto não é autobiográfico. vem de observações mesmo:)
    a propósito, bacana esse texto seu:)
    beijos e continue visitando a gente, viu?

  8. PequenAprendiz Disse:

    Sempre surpreendente Bic.
    Abandonar a casca e deixar a alma prosseguir.

    Bjos.

  9. Rafaela Silva Santos Disse:

    Profundo…deu-me a sensação de uma morte, porém muito tranquila e serena, no desprendimento do corpo com a alma.Bela descrição.Beijuuss

  10. Lia Drumond Disse:

    Ui, que lindo!

  11. Srta. Rosa Disse:

    Cheguei pelo site das meninas, vim espiar mesmo. Gostei daqui! E do texto. E voltarei mais outras muitas vezes…

  12. (marta) Disse:

    sempre profundo…
    e perfeito nos detalhes..
    adoro suas letras.

    ;*

  13. Fê_Notável Disse:

    Lindo, profundo e pacífico… senti uma paz tão grande ao ler, você não faz idéia! O texto é de uma beleza e sensibilidade que nos faz desejar ter uma morte assim!
    Parabéns!

    Beijos=*

    http://www.escritoshumanos.zip.net
    http://www.algumasobservacoes.blogpost.com

  14. Jana Disse:

    Por vezes eu queria estar tão distante assim

    beijo

  15. gilvas Disse:

    esse negócio de ler clarice lispector não podia realmente dar em coisa diferente…

  16. naorepito Disse:

    Não era sobre publicidade?

    Entra aí no meu tb. Ele é sobre propaganda:
    http://vamosfalarmal.wordpress.com/

  17. Dedinhos Nervosos Disse:

    Volta!

  18. Jubliana Disse:

    Consegui ver um roteiro inteiro aí.
    Algo de dez minutos, mas um roteiro incrivel.

    ;)

  19. Vanessa Disse:

    Lindo e profundo…
    Parabéns…

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