_ Sabe… – disse Carlos, que tinha uma irritante mania de ser reticente – os celulares… deviam ter, tipo… um aviso nas caixas…
_ Como aqueles fetos mortos dos cigarros? – questionou Pedro, já meio distantes desde o “Sabe…” – ouvi dizer que dá câncer.
_ Não… é… Isso também… – Carlos tomou uma difícil decisão: voltar ao assunto inicial antes que se esquecesse completamente dele – quero dizer… algo mais como aquelas… aquelas telas azuis de propaganda de remédio… ”Se persistirem os sintomas…”
_ É “A persistirem” – Pedro retificou de imediato, mesmo sem ter certeza.
_ É… foda-se. Algo assim.
_ Hmmm – desinteressou-se Pedro.
_ … – irritava Carlos.
_ Dizendo o que? – perguntou Pedro com a leveza suavemente aborrecida dos ausentes. Na verdade, ele percebera que não tinha muito mais o que fazer, além de ter aquela conversa.
_ É… ”Felicidade não incluída”. – concluiu Carlos, com um meio sorriso e um longo suspiro.
_ Com hífen?
_ …. acho que sim.
_ Porque tem essa reforma aí. – disse o distante e perspicaz Pedro.
_ É… é foda.
_ Por que, hein?
_ Ah… Junta um bando de… professores ou algo assim… e falam: “Queremos vendar mais dicionários”, aí…
_ Não, to falando do…. – Pedro não era reticente. É que Carlos não parou de falar.
_ Deve ser tudo culpa da Internet e…
_ Celular. – Pedro concluir a sua frase, não a de Carlos.
_ Isso! … e do celular. – disse Carlos, que se animou mesmo assim.
O silêncio pairou e viu que não tinha nenhum motivo especial. Foi embora.
_ Um aviso na caixa? – não que Pedro estivesse mais atento. Na verdade, a palavra “Celular” ecoou, vagando pela sua mente à procura de algo para se associar. Deu nisso.
_ É… eu acho que tinha que ter…
_ Tinha sim. Que aviso?
_ “Felicidade… não incluída”.
_ Tipo os brinquedos que vinha sem pilhas? Eu ficava mordido com aquilo. – disse Pedro.
_ Ah… Eu também, cara… eu também… – concordou Carlos.
_ Todo mundo! – globalizou Pedro.
_ E o celular… é assim: mil funções… – suspirou o irritante Carlos.
_ O Steve Jobs não para. – Pedro continuava a soltar a primeira coisa que lhe vinha à mente, sem prestar a mínima atenção.
_ … e nenhuma… te abraça. – desabafou Carlos.
_ Acho que por serem pequenos, né?
_ Não é isso…
_ Soube que os japoneses fizeram um aplicativo de iPhone que simula o uma pegada nos peitinhos. – lembrou Pedro.
_ Não é nada disso. Eu não sou idiota. Mas, digo… – Carlos falou sério.
_ Não é idiota. – disse Pedro, convicto.
_ Mas… Pra que serve se…. ninguém te liga? – Carlos encheu os olhos de lágrimas.
_ A tarifa é alta. – disse o óbvio e distraído Pedro.
_ A Juli… ela… ela… me traiu, Pedro. – soluçou Carlos. Cinco vezes.
_ Se vocês tiverem a mesma operadora, vão economizar.
_ Digo… sei que… eu errei com ela.
_ Errar é humano. Perdoar é divino.
_ Mas eu sou… humano – secou as lágrimas – e não vou perdoá-la!
_ Somos o que somos.
_ Foi ela… que quis passar o Ano Novo com os pais dela lá na praia…
_ Ah, o verão.
_ Eu não podia… era meu plantão, poxa.
_ Obrigações primeiro.
_ Aí mandei uma mensagem… “feliz ano novo, amor”. É… o que eu queria dizer…
_ Ah, o amor.
_ Ela leu… e passou a noite toda…. beijando aqueles….. aqueles saradões lá da praia.
_ Traição pérfida!
_ … ei… isso… não é um… pleonasmo?
Agora uma pausa para nosso momento científico:
É comum que duas pessoas percam o fio da meada ao conversar. Especialmente sob o efeito de alucinógenos proibidos no Brasil.
Mas não era este o caso. Em seu estado normal, a mente humana tende a se questionar, às vezes. É uma manifestação, muitas vezes não verbal, que pode ser definida como o fenômeno do “que porra é essa?”.
O fato é que a pergunta de Carlos trouxe Pedro de volta de onde quer que ele estivesse até a pouco, com uma delicadeza digna de um mamute.
Voltemos à nossa animada(!) conversa.
_ Você ta me dizendo que a Ju fez isso contigo porque você passou uma mensagem de “Feliz Ano Novo”?
_ É… – envergonhou-se Carlos – Mas é que tinha um paciente esperando então… acabei não lendo antes de enviar.
_ E daí?
_ Eu tava usando aquele…. T9, sabe?
_ Não. O que tem?
_ Você… nunca usou? Facilita na hora de escrever e…
_ Não sei. Não tenho celular. – disse Pedro, com toda naturalidade.
_ Mas… Não tem?
_ O que você escreveu pra minha irmã, cara? – Pedro quase se alterou.
_ “feliz com novo amor”.
_ Sem vírgula.
_ É… sem vírgula.
_ Por causa do celular?
_ Isso…
_ Hahahahahahahaha!
_ São as mesmas teclas…
_ Hahahahahahahaha!
_ É sério, porra…
_ Aiai… E por que você não desfaz logo esse mal entendido? – Pedro limpou outro tipo de lágrimas.
_ Ela beijou doze caras!
_ Ao mesmo tempo? – Pedro é fã do Kevin Smith.
_ Escuta… porque você não tem celular?
_ Não sei. Não gosto, eu acho.
_ Mas assim ninguém vai te achar…
_ Você me achou, não foi?
_ É…
_ E eu vim pra chácara.
_ Eu… eu sou um idiota, Pedro… – lamentou Carlos.
_ Não é idiota. – repetiu Pedro, convicto.
_ … – Carlos sorriu em silêncio.
_ A Juli vai rir muito dessa história. Ela te ama. Sabe Deus o porquê, mas ela te ama. – disse Pedro dando um “tapinha” mais forte que o necessário em Carlos.
_ Mas… doze?
_ Quem te disse isso?
_ Sua prima me ligou ontem.
_ É só papo de prima. Vou lá pra dentro. Os pernilongos estão me roendo.
_ Já vou… – Carlos pensou sozinho olhando para o reflexo das estrelas na água, ou através dela, perdido em seus pensamentos.
_ No máximo nove. – Pedro resmungou no caminho para a casa.
_ O QUÊ? – gritou Carlos.
_ NOVELA DAS NOVE! – respondeu Pedro.
[Epílogos são só pra quem gosta mesmo de ler. Continue, se quiser.]
Carlos lembrou de “Titanic”, o primeiro filme que assistiram juntos. Não parece grande coisa, mas era uma boa lembrança.
Ele jogou o celular na água e ficou feliz. Mas se arrependeu em seguida, porque podia tê-lo vendido no Mercado Livre. Mas teria que conviver com isso.
Quis logo ligar pra Juli e meteu a mão no bolso vazio. Lembrou que Pedro não tinha celular nem telefone na chácara e saltou num mergulho perfeito no lago que tinha a profundidade impressionante de meio metro.
Pedro ouviu o barulho e saiu de casa gritando algo sobre baterias alcalinas envenenando a natureza. Achariam o aparelho no dia seguinte com lama até os chips.
Carlos foi correndo e pingando pra vendinha mais próxima e comprou todos os seis cartões que havia lá. Ela riu e chorou por umas duas horas.
Resolveram morar juntos e passam bem, obrigado. Pedro secou o celular ao sol e ele funcionou direitinho. O dono da vendinha o arrematou pelo preço da compra do mês.
Tags: amizade, amor, celular, Confusão, engraçado, futuro, humor, internet, modernidade, relacionamentos, simplicidade, tecnologia
Março 11, 2009 às 1:19 pm |
Aeee Hipólito muito bom!!
mandar mensagem pelo celular é uma merda!! rssr
Março 11, 2009 às 4:53 pm |
muito muito muito bom.
essas confusoes de frases mal ouvidas e mal formuladas no nosso dia a dia dao a comedia-tragica pra gnt continuar a viver. hehe.
adorei.
e outra.
q engraçado. sbre omeu blog la.
eu nunca tinha escutado aquela musica.
de fato parece comigo.
brigada!
;*
Março 12, 2009 às 3:23 pm |
Agora sim, valeu a espera. Adorei, pra variar… Só parei no final e depois reli com calma. Delícia, baby… Bjs
Março 13, 2009 às 12:14 am |
Mais importante é o que se fala, como se fala…. não com o que se fala.
Pra quem gosta de ficar sozinho – sim é possível gostar de ficar consigo mesmo – celular não é boa compania.
Um texto e tanto. Temática moderna, surpreendente final feliz. Adorei, genial como sempre.
Um abraço
Março 13, 2009 às 10:56 pm |
ah gostei… homens reticentes realmente dão nos nervos…
Abril 5, 2009 às 1:39 am |
Gostei muito.
Abril 7, 2009 às 6:11 pm |
Boa tarde.
Só quem já viu seu celular cair na água e aquela luz acendendo, entende a urgência de resgatá-lo.
Gostei bastante.
Olha você ganhou uma Fã!!!!
abs.
Katia
Setembro 9, 2009 às 8:13 pm |
gostei