o escritor e o pernilongo.


Vida de escritor não é fácil. Você pode fazer qualquer coisa, desde que escreva.

E se você precisa escrever, não dá pra ficar fazendo qualquer coisa.

O fato é que, quando um escritor apanha uma ideia, ele sabe que precisa aproveitar essa chance, se puder, interromper tudo e escrever já. Nem que tenha que desligar a TV na cobrança dos pênaltis, se esconder no banheiro da balada, passar do ponto que ia descer, recusar um copo, um beijo ou uma viagem. Ele tem que parar tudo e escrever o máximo que puder.

Porque uma ideia sem o contexto, não volta fácil. Corre o risco de ir parar na gaveta dos textos que são chamados de inacabados por pura bondade, pois eles estão acabados mesmo. Nunca verão a luz dos olhos do leitor.

Por isso, quando pego feliz naquele ambiente confortável por uma ideia, o escritor se viu obrigado a agir. Desligou a TV, pegou seu notebook e começou da descer a lenha. Queria escrever de uma sentada só, como faziam os grandes mestres que ele citaria se não estivesse tão concentrado naquela ideia.

A mulher o chamou para o quarto. O próximo capítulo da série já ia começar. A bexiga avisava que precisava liberar espaço interno, mas nada o convenceu. Era hora de escrever.

O que o obstinado escritor não sabia era que o veículo que move as ideias entre cérebro e coração, capaz de oxigenar e tingir – o sangue, é claro – , também estava na mira de um ser vivo igualmente obstinado. O pernilongo.

“O” é forma de dizer. Faz um tempo que é de conhecimento quase geral que apenas as fêmeas dos pernilongos picam.

Ela não precisava de muito, apenas o suficiente para maturar seus ovos e contemplar o mundo com mais uma porção de mosquitos a zumbir no ouvido alheio.

Após estudar o quase imóvel escritor através de seus olhos multifacetados, finalmente chegou o momento da grande investida. Acelerando a toda velocidade o pernilongo (ou “a mosquitinha”, como quiser) emitiu seu ruído característico e incômodo, pra não dizer insuportável.

O escritor, contrariado, apenas virou os olhos e busca do seu agressor, sem parar de digitar. O inseto veio com todas as suas armas prontas e uma velha estratégia. Ele toca  a vítima e passa direto, incomodando o suficiente para fazê-la se mover. Só então o danado pode reduzir a velocidade e pousar sorrateiro, sem incomodar nem ser percebido.

Depois, é a hora da mini sanguessuga aplicar seu anestésico sobre a pele e só então penetrar a segunda camada da pele e extrair o néctar da vida, carregado de ferro e enzimas essenciais. E um tanto de vodka também.

É quando finalmente acontece a coceira. Não pela picada, mas pelo anestésico, altamente alérgeno para a grande maioria das pessoas, da qual nosso escritor faz parte.

Assim que sentiu não pode evitar tirar uma das mãos do teclado apenas para golpear em vão o outro braço num tapa ressonante. A intrusa acabou tendo que fugir às pressas para não ser esmagada como muitos de seus parentes. E com menos sangue do que queria.

Round 2. Após um breve tempo de descanso na parede, a valente vampira tenta um novo ataque rasante mas é surpreendida por um aplauso do agora atento escritor, que viu na caça ao invertebrado a desculpa que precisava para postergar sem culpa próxima linha. Não por acaso, no travessão da fala de seu personagem moribundo.

Sim. O escritor também queria sangue, mas não fisicamente. Queria colorir de rubro as as páginas de seu novo romance. Agora, um personagem chave para a trama jazia ali, prestes a dizer suas últimas palavras. E ele não fazia ideia de quais seriam. Mas confiava no seu instinto.

Tal qual fez a pequena criatura que, analfabeta por natureza, não se importava minimamente se suas distrações atrapalhariam a criação de um best-seller, ou Nobel de Literatura que fosse. E não era. Seu instinto dizia que precisava de sangue. E rápido.

Só tendo uma vida curta como a desses seres indesejados você poderia entender a urgência de se conseguir o que quer. Pensando bem, talvez nem assim. O que não falta por aí são humanos desperdiçando seu curto tempo de vida sendo tristes e/ou presos à uma rotina que detestam mesmo tendo escolha, apenas por medo de se arriscar. A maioria de nós seriam pernilongos destinados a morrer sem picar ninguém.

Divagações à parte, o conflito se acirrava e, àquela altura, era cada vez mais difícil saber quem era a caça ou o caçador. A minúscula fazia o seu melhor, entre piruetas e outras acrobacias que a permitiam viver um pouco mais para tentar de novo, mesmo ao custo e muito de sua energia.

Em contrapartida, o escritor já havia desferido uma série de tapas em vão, atingindo paredes, móveis e também o próprio corpo, num espetáculo não menos espetacular. Afinal, o circo não vive só de trapezistas. Um bom palhaço em ação faz a plateia vibrar. Especialmente um como este, amador, mas que estapeia a própria cara como poucos.

Exaustos e pouco certos de seu futuro próximo, finalmente os dois ficaram face a face quando o escritor erguia-se lentamente e deparou-se com sua algoz ali, sobre o seu teclado. Ele deixou o instinto agir num tapa sonoro e fatal. Para a nêmesis voadora e pra algumas teclas inocentes, que também acabaram voando.

Ali estava o pequeno cadáver repleto do sangue alheio. E, a sua volta, um escritor que comemorava a vitória da batalha. Uma comemoração curta, frente ao teclado destruído e um personagem moribundo sem últimas palavras pra dizer.

O incômodo tinha se transformado numa divertida atividade, mas agora, a brincadeira tinha acabado. Ele assumiu seu lugar, limpou os óculos para ler novamente o trecho final da história que acabou tingindo de vermelho, também do lado de fora das páginas.

Respirou fundo. Leu de novo. Sorriu. Gargalhou.

_ Puta que pariu! Inventei uma onomatopeia!

E foi assim que o escritor encerrou o capítulo que viria a ser o mais elogiado de seu livro. Motivo pelo qual incluiu, já na segunda edição, uma pequena e enigmática dedicatória.

Aos incômodos que nos aparecem voando,
prontos para sugar aquilo que nos faz viver
mas que, vencidos, deixam sua marca
na doce esfera dos imprevistos:

a única capaz de nos surpreender a cada final.

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de existir.


Desistir
tá errado
Até na grafia

Veja aí
o contrário do sonhado
de tentar mais um dia

deveria ser desexistir

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resumindo.


_ A história é essa: ela lembraria dele para sempre. Bastava que ele não lhe negasse seus adorados cookies.
_ Ele era cozinheiro?
_ Não.
_ Ela era pobre?
_ Não e não. Ela era uma página de internet e ele era usuário de webmail.
_ Putz!
_ Que foi? Não gostou? Achei que daria uma boa história…
_ Assim, surpreende e tudo mais, mas cadê os sentimentos? Coisas que marcam a vida? Se fosse um filme, tudo se resolvia num clique!
_ Ué, e quantas pessoas se amam por tanto tempo e depois se esquecem completamente umas das outras?
_ Eu nunca esqueci ninguém que amei.
_ Lembra do nome de todos os amigos que teve até hoje?
_ Lembro! Quer dizer, acho que lembro da maioria…
_ Então! A máquina nunca se esquece, a não ser que seja forçada a isso. Que se delete sua memória, que se deteriorem suas peças, que tirem ela da tomada!
_ Só?
_ Como “só”?
_ Eu acho que passei por mais coisas do que essa sua máquina aí. Tenho direito de ter esquecido meia dúzia de sumidos.
_ Alguém te forçou a isso? Vai dizer que sua mente tem um “delete”? Porque eu vou morrer de inveja. Queria esquecer tanta coisa…
_ Aí é que está: não esqueci porque quis. Então, fui forçada a isso também.
_ !
_ Que foi? Liberei espaço em disco. É automático.
_ ….sabe que eu vou lembrar de você pra sempre?
_ …
_ …
_ Mas se você fizer algum trocadilho com “cookies”, pode ter certeza vai ficar sem.
_ Olha que eu te esqueço, hein!
_ Duvido.

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sua síntese.


Eu escrevi uma canção de amor
Eu escrevi um conto de amor
Eu escrevi uma declaração de amor em forma de conto
E já escrevi tantos poemas de amor que nem me lembro mais quantos são

Não sei dizer
Quantas letras já juntei
Combinei, adestrei, violei
Ou fiz brigarem entre si

E tudo que fiz
Foi tentando dizer
Isso que não se explica

Aí vem você
E me diz tudo com um único abraço

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lá e cá.


Sobre o mar aberto
Sob um céu fechado
O pensamento vaga
Enquanto o corpo se ocupa

Tudo se revela com clareza
Na câmera escura
Feito uma fotografia do futuro
Que se passa como memória

É como reflitir
Ainda que no espelho
É agir sem pensar
Ou assistir acontecer

Querer é tão humano
Buscar é tão automático
Quanto desistir
na menor dificuldade

Tudo isso
Nos aproxima e distancia
Na mais perfeita simetria
Na mais perfeita dictomia

Nada disso
Da poesia ao dia a dia
Há um traço, um ponto
Que vai ou que fica
E qual será?

Todo feito é imediato
Quase sempre fugaz
Todo discurso memorável
é só lembrança e nada mais.

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memórias.


Antes que eu esqueça ainda mais delas, acho que é melhor registrar aqui um pouco do que ainda lembro.

Claro que não estou falando daquela fórmula gasta de dizer o que você mesmo lembra sobre a vida (no caso eu), nem aquelas que você mistura com imaginação para parecerem melhores ou piores do que foram. Nem de falar com a câmera em PB para o Fantástico.

As memórias dos objetos são um pouco menos exploradas mas igualmente gastas, com o diferencial da frieza que lhes é característica.

Algo parecido com o que acontece com a memória dos lugares e dos povos, que acabam sendo para lá de impessoais. E como seria diferente?  

Outras velhas conhecidas são as memórias de personagens. Essas, normalmente, são a melhor parte da história. Os flashbacks de Lost não me deixam mentir.

Bom, então é isso, terminei.

O quê? Está se perguntando sobre o que são as memórias que escrevi, então? Ora, são sobre as memórias que tenho sobre memórias em geral.

Essas, duvido que alguém já fez. Bom… pelo menos não que eu lembre.

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fumaça e espelhos.


mágica
é distrair a atenção 
prática
da imaginação 

(asas de Ícaro) 

a vida é mágica,
dizem 
mesmo que trágica
também  

(asa delta) 

mais um carro parado
em fila no sinal mais alguém
à caminho do hospital 

(asinhas de frango) 

sem mágica
segredo e truque revelam-se
mesmo que machuque

(asas podadas) 

é só fumaça 
dos fogos e tiros 
do escapamento 
do cigarro fedorento 

são só espelhos 
o real, que mente 
para a mente
o virtual, desenvolvido
pra mentir ao desconhecido
e os negros,
de LED e LCD 
desligados sem querer 

(asas de chumbo)   

No prazer,
eu sei
asas de formiga
(que só duram um dia)

No amor,
talvez  
asas de anjos,
(eternas pra quem acredita)

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