morangos.

Tssss……

Teria acordado com o ruído da frigideira? Improvável. Provavelmente foi acordada por algum sonho intranqüilo ou pelo um instinto adquirido de acordar sempre bem cedo.

Imediatamente percebeu estar longe de sua casa. Apesar da preocupação, sentia-se estranhamente confortável. O lugar lhe era quase famíliar, ao contrário do amargo gosto que sentia na boca e da forte dor de cabeça. Mais estranhamente ainda, tanto o lugar quanto a sensação lhe emanavam passado.

Chegou a pensar que havia sido raptada, não fosse o zelo e o perfume agradável daquele quarto tão simples e a pequena cesta que estava cheia de morangos que, de tão rubros, pareciam artificiais.

Após experimentar o primeiro com certa desconfiança seguida de apreço, fechava os olhos a saborear a doçura e o frescor das frutinhas que sempre lhe foram as preferidas, enquanto tentanva remontar o dia anterior. A dificuldade desta tarefa era tamanha que parecia que teria feiro questão de esquecer. A mente funcionava mais devagar do que gostaria.

Devorava um por um os morangos que intuitivamente imaginou serem seus, enquanto imaginava quem estaria no andar de baixo. Ou fingia, pra si mesma, não saber. Sabia que não havia risco e isso era o suficiente. Preocupou-se por um momento: seus familiares conheciam seu paradeiro?

Foi quando uma das passagens do dia anterior voltou a mente. Ela não se importava mais.

A melancolia lhe invadiu. Devorou dois morangos de uma vez. Desejou ter alguma calda, talvez chocolate, seu vício antigo.

Pensou também que seria melhor comer algo salgado, que matasse sua fome. Lembrou do barulho da frigideira e imaginou pãezinhos na chapa. Comeu o último morango, enrolou o lençol em volta do seu delicadamente esculpido corpo. Estava apenas com uma camiseta de número bem maior que o seu, sem marca ou estampa.

Ao tentar dar o seu primeiro passo no chão de madeira, fez mais barulho do que gostaria. Ficou atenta ao ouvir sons de vidros e o cessar reticente da frigideira.

Ainda de pé ouviu cuidados porém ruidosos passos na escada. Eram lentos e seu som parecia cada vez mais monótono, pois à medida em que parecia reduzir as passadas, se aproximava. Causando a impressão de som linear.

Deitou-se rapidamente, novamente mais ruidosa do que gostaria. Certificou-se de estar protegida e fingiu dormir, de forma nada convincente. Foi quando ouiviu uma voz masculina familiar:

_ Sei que está acordada.

Respirou profundamente, insistindo na encenação.

_ … a menos que tenha desenvolvido algum tipo de sonambulismo com gosto especial por morangos…

Ainda de olhos fechados, sorriu safada. Como uma criança pega no ato da traquinagem.

_ Anda! Levanta logo que a bandeja tá pesada!

“Bandeja?”, pensou. “Só ele mesmo!”

Espreguiçou-se demoradamente, emitiu algum tipo de grunido engraçado ao final.Sorriu.Tentou encará-lo por um instante mas ele foi mais rápido e interrompeu a expressão de encantamento que deixou escapar e se aproximou colocando a bandeija sobre a cama. Eram coisas simples, mas que lhe pareciam bem saborosas. Podia ser apenas fome.

Havia (além do pão, biscoito, leite e suco) dois copos cheios d’água. Ele entregou o um deles e disse:

_Primeiro esse.

Fez cara de protesto. Ele a pesuadiu com um olhar.

Tomou quase tudo. Ele a acompanhou com um olhar fiscalizador e entregou-lhe um analgésico. Sem outra opção, tomou o segundo copo.

Ele lhe deu as costas e, ao sair do quarto foi indagado:

_ Onde você vai?

Como estava com a boca cheia e demorou perguntar, acabou falando sozinha. Depois completou o monólogo dizendo em volume baixo:

_ Obrigada…

Depois de certo tempo ele voltou com algumas roupas nas mãos sorriu e voltou-se para a porta, quando foi chamado:

_ Espera, volta aqui.

Ainda sorrindo ele se virou, mas erguia levemente uma das sobrancelhas, em sinal de interesse no que ela diria a seguir.

Titubeou, não sabia bem o que dizer:

_ Quanto tempo eu dormi?

_ Quase um dia inteiro. Logo vai anoitecer.

_ Nooooooossa….

_ Mas parece que foi pouco, você está muito pálida.

_ Ninguém merece essa dor de cabeça…

Ele não perdeu a chance:

_ Bem feito, vai beber e nem chama os amigos…

Riram bastante.

_ Ai! Doeu a cabeça!

Riram denovo, pouco antes do clima percer um pouco da sua leveza. O olhar dela reduziu o brilho. Ele sabia que não deveria estar ali. Não com ela.

_ Sabe que eu tenho que ir, né? Logo vai anoitecer, já devem estar me procurando.

Ele mudou a expressão, ela também. Praticamente um duelo:

_ Eu tomei a liberdade de deixar o seu celular carregando. Por sorte, meu carregador serviu.

Inquisição:

_ Também tomou a liberdade de tirar minha roupa, né?

Ironia:

_ E de te dar um banho gelado.

Surpresa:

_ Putz! Sério? Tava tão ruim assim?

Triunfo:

_ Pergunte a seu fígado.

_ …

_ Além disso, a doutora ia demorar pra chegar com a glicose e…

Interrompeu:

_ Doutora?

Continuou:

_ Manterá sigilo, é de confiança.

_ Quem mais sabe onde eu estou?

_ Eu. Ela não te conhece.

_ …

_ Desculpe, é o mínimo que eu podia fazer. Aliás, nem foi exatamente um banho. Se eu fosse você, tomaria outro. Você pesa mais do que um bebê.

Ainda sem graça, ela sorriu séria:

_ Obrigada.

Ele tentou quebrar a tensão:

_ Nada que eu não tenha visto…

Se enrubesceu tão rapido quanto tentou golpeá-lo. Muito irritada ou apenas com vergonha.

_ Cachooorro!

_ Pára, senão eu começo a dar detalhes!

Ele ainda levou um último “quase-beliscão” antes de que os ataques, finalmente, cessassem. Ele tentou consolá-la:

_ Você sabe que eu não fiz nada.

_ Eu sei.

_ O que ele disse?

_ Meu deu o maior apoio, um amor.

_ Que bom.

_ E você, várias gatas?

_ Eu sou alérgico, você sabe.

_ Você sabe do que eu estou falando.

_ Nada que tenha dado certo.

_ É a vida.

_ Nada com que você se importe também.

Ela baixou a cabeça, respirou fundo. Ambos evitaram este momento o quanto puderam:

_ Não fala assim. Nós tivesmos a nossa chance.

_ Desculpe.

_ Olha, eu sei que fiz um monte de bobagem e agradeço de verdade por tudo que você fez hoje, mas entre nós acabou. Você mesmo acabou.

_ Eu não te pedi nada.

_ Mas te conheço bem demais pra saber o que se passa, mesmo quando você não diz.

_ …

_ Eu tô apaixonada! Ele vai me perdoar, afinal, não foi nada de mais. Eu nunca estive aqui e não vamos nos encontrar denovo. Você vai seguir sua vida e eu vou seguir a minha. Decidimos isso há muito tempo atrás…

_ Olha, eu não sei o que fez você fazer o que fez, mas eu queria hoje servisse de prova de que você pode contar comigo.

_ Eu sei, sempre soube.

Ele não podia mais sustentar aquele tom. Mudou:

_ Você sempre sabe.

_ Vai começar?

_ Eu terminei, lembra?

Silêncio brutal gritava nos pensamentos e olhares rancorosos. Ela pede licença, ele sai e ela se veste. É hora de ir.

_ Eu posso te dar uma carona.

_ Você pode me entregar.

_ … olha, sobre o seu celular…

_ .. sobre suas “liberdades”…

_ Ninguém ligou.

O silêncio volta, agora melancólico e doce. Na imaginação ele vê abraços desesperados, lágrimas e sorrisos. Coragem e covardia suficiente para enfrentar o mundo, mas pouca para enfrentar a si mesmo.

Ela se levantou para ir, o tempo estava ameno, mas ela certamente tinha pressa. Não disse nada. Inclinou a cabeça, respirou fundo e sorriu amistosamente. Agradecendo e se despedindo num só gesto. Ela a imitou, com se fosse um ritual.

Quando ela se virou, o coração dele disparou. Ela ia junto com suas tolas esperanças; declarava o retorno de suas noites vazias. Ela não precisava mais dele. Era uma estrela e brilhava sozinha. Ele está fora de sua óbita.

Foram milésimos de sugundos que, um a um, bombardearam sua mente com imagens, palavras, lembranças… um pequena distração da razão bastou:

_ Espere!

Ela se virou com receio e pressa. Aguardou enquanto ele respirava e se amaldiçoava pela fraqueza e franqueza.

_ Eu ainda…

Ela o interrompeu em tom contráditório. Era brusco e amistoso:

_ Eu sei.

_ …

Ela se virou denovo. Ele não sabia o que fazer ou o que pensar.

Ela se virou de súbito e ele tentou, atrasado, disfarçar sua expressão confusa.

Com um expressão imprecisa, característica, ela perguntou:

_ Seu celular ainda é o mesmo?

Ele sorriu.

Ela se foi e ele ainda sorria.

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Sobre bic azul

Uma caneta pode escrever qualquer coisa, boa ou ruim. Normalmente, ninguém liga muito se ela funciona. Mas, quando ela falha...
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4 respostas para morangos.

  1. _Maga disse:

    Adorei o poema misterios. Cheio de referencias pop´s, e com uma rima que é dificil de trabalhar. bjo

  2. _Maga disse:

    Muito bom essa sua cronica. Adorei. Nao conseguia parar de ler. bjo

  3. Thahy disse:

    bic, apareci aqui estou… com relação a casar ainda bem q nao estamos em 1500 pois senão seria decapitada, visto que já sou qse casada!
    Gostei da cronica, visualizei-a por inteiro, principalmente a cara dele no final…abobalhado…ah, o amor! Virei seeempre aqui 🙂

  4. Teresa Lopez disse:

    Depois do encontro noturno, não há ambientação melhor que essa para o após.
    Bic, és masculino ou feminino?

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