bourbon.

Estava quase debruçada sobre uma das mesas. Suspirou e exibiu uma pequena parte da sua língua entre os dentes – ainda mais linda do que eu me lembrava. Desviou o olhar por um segundo e me viu em meio a fumaça dos cigarros, homens sem esperança e tacos de sinuca.

Desfilou pelo bar com graça embriagada quase desapercebida. Me olhou fixamente e mordeu os lábios vermelhos como o longo e justo vestido.

Sem desviar o olhar senti a inveja de muitos – pudera eu merecê-la – quando ela debruçou a exibir seu belo decote. Quase não pude conter a vontade de desviar dos seus olhos verdes e traiçoeiros.

Ofereceu-me o bourbon que segurava, eu não respondi. Estava petrificado como um infeliz adversário da Medusa.

Tentou então oferecer mais uma vez, agora em sua boca muito perto. Quando desviou-se de um beijo certo até meu ouvido e sussurrou:

_ Por que você voltou ?

Frente ao meu silêncio, ofereceu-me então o corpo acariciando levemente os seios. Se aproximou e o calor da sua respiração embaçou meus óculos:

_ Eu sei o que você quer, mas não está aqui.

_ Você não sabe de nada. – disse-lhe pausadamente.

_ Foi um erro voltar. Em breve saberão que está aqui e virão te buscar. – sua feição agora era séria.

_ Você não entende. É o exato contrário. Eu estou aqui porque sei deles. Eles não virão me buscar. Já estão aqui.

O horror ia pouco a pouco lhe invadindo a alma enquanto notava olhares à sua volta. Notava os rostos de um passado que gostaria de ter esquecido:

_ As coisas voltarão a ser como eram… – inundou os olhos.

_ Não. – interrompi – Nada mais é como era.

_ O que quer dizer, então?

_ Nada. – entreguei-lhe um maço de notas grandes tão rápido quanto ela as escondeu mesmo sem nenhum bolso. – Absolutamente nada.

_ Você quer me deixar louca?! – se desfez – Isso é tudo que me resta!

_ Não. Você tem uma chance. – limpando os óculos continuei – Você precisa desaparecer agora mesmo. Não olhe para trás e não se despeça de ninguém. Apenas vá. E não me procure ou eles te acham.

Não poderia encará-la mesmo que quisesse. Fixei-me no fundo do meu copo vazio. Ela disparou:

_ Quem você pensa que é? Vai acabar com você mesmo? Acha que assim eu vou te perdoar? Perdeu o juízo! Eu já morri há muito tempo! Eu vou ficar! – cerrou os lábios e buscou, em vão, meus olhos dispersos.

_ Pois faça o que quiser. Para mim já é tarde, eu já tomei minha decisão. Mas, você tem uma chance. Pode me culpar apenas ir. – levantei e vesti o terno antes pendurado na cadeira.

_ Onde você estava? – expirou.

_ No inferno. – engoli seco.

_ Seu grande idiota. Eu amo você.

_ Nunca deixei de te amar, sua louca.

Recebi um beijo apertado. Sem língua. Senti a sua respiração trêmula e o gosto da lágrima que escorreu pelo seu rosto até nossas bocas. Afastei-a:

_ Vá!

Me olhou bem no fundo dos olhos – da alma – uma última vez e saiu tão depressa que somente lá fora poderia ouvir meu primeiro disparo. Um disparo para cima.

Entre os sons de gritos, saltos e botas apressados, saquei a segunda arma. Ainda pude arrumar o chapéu, pois sabia: nem todos os presentes fugiriam.

E era para estes que eu ria alto e insano disparando mais devagar do que gostaria.

Eu nunca deixei de te amar, sua louca.

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5 comentários em “bourbon.

  1. Uaw!!!! Que texto!!! Delicioso! Parabéns!!!!!!

    Alias um comentario esperial para a descrição do blog: demais! Adorei!

    Beijokas muitas

  2. Bom texto, Bic! Tem um toque de Frank Miller. Dava para juntar as crônicas com este “casal” e montar um livro.

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