da biblioteca.

Estava sozinha. Chorava baixinho…Uma poesia com forma, encarnada. Ficava ainda mais bela com olhos que, de tão avermelhados, pareciam irreais.

Mas era uma casca, vazia como uma história pela metade.

E quantas histórias e histórias descasavam à sua volta. Fechadas, em silêncio, preguiçosas. A exigir dela apenas um pequeno movimento de suas delicadas mãos. Palavras, letras soltas como numa sopa, se embaralhavam em sua mente brilhante.

Teria sido um romance que lera? Não…Havia muitos, lera vários. Já não se impressionava tanto.

Era o vazio? Não mais. Algo lhe preenchera de súbito. De tal forma, que foram-se as lágrimas. Apertava os olhos, sentindo felicidade em sua tristeza! Por, afinal, sentir algo.

Que poderosa mensagem seria essa que levou tão bela e vazia moça – louça – ao prantos? Decerto que era escrita, pois, naquela grande e empoeirada casa, o silêncio reinava quase absoluto, violado apenas pelos soluços da jovem.

Letra alguma batida à máquina jamais causou-lhe tal sensação. E realmente não era este o caso. Mas chorava com apenas um entre tantos outros. O autor era bem pouco conhecido, o título bem trivial, a trama e as reflexões eram bem desenvolvidas mas, embora o ápice realmente surpreendesse e reflexão causasse, seria apenas mais um: empoeirado, empoleirado há tempos. Deu-se conta de que não tinha acabado de ler e reiniciara a leitura no dia anterior.

Divertiu-se dentro do esperado e absorveu o que considerou mais importante.
E quando satisfeita por adicionar mais um ao seu autodenominado “currículo literário”(orgulhava-se da quantidade de títulos e pluralidade de estilos), folheou a página em branco que separava o fim da história da contracapa e deparou-se com algo inusitado: uma dedicatória de data antiga tomara-lhe coração e pensamento com lembranças doces e distantes, prestes a se apagarem. Ela tentava dizer, mas estava incapaz. Parecia querer saborear os momentos, amarrá-los de forma que não se esvaíssem de sua memória como se esvaíram de sua vida.

O manuscrito que transformara-lhe como nenhuma letra batida à máquina fora capaz de fazer, de tão antigo, quase desaparecera. Chegou até mesmo a pensar em cobri-lo com uma caneta mais forte, para que não desaparecesse, mas refutou imediatamente a absurda idéia, pois perderia a originalidade.

Acariciando a contracapa, imaginava que nunca sentiria as mãos que sobre ela tocaram a lhe escrever. Tão distantes e tão saudosas. Chorava baixinho até dormir, desejando poder voltar e ler antes, ou jamais ter lido.

Sobre bic azul

Uma caneta pode escrever qualquer coisa, boa ou ruim. Normalmente, ninguém liga muito se ela funciona. Mas, quando ela falha...
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4 respostas para da biblioteca.

  1. Thahy disse:

    gente, q medo… me vi inteira neste texto…

    uma imagem do meu feriado…

    quem sois vós? um bruxo sobrevivente dos idos anos de 1500? escapaste da fogueira da santa inquisição😉

  2. _Maga disse:

    Que texto sensivel este. Eu sempre gostei de ler as dedicatorias dos livros da biblioteca… saber que aquele livro, tendo sido lido ou não, já trouxe emoção para pelo menos duas pessoas: a que escreveu e a que recebeu a dedicatória… É realmente tocante. Pessoas, relações humanas reais são importantes demais. Elas são a verdadeira poesia. Elas são a origem de toda a poesia. Um abraço pra ti…

  3. Shunya disse:

    Uma das coisas mais lindas que vi nos últimos tempos aqui na net…

    E ela chora e adormece e torna a acordar lembrando do seu passado, época de quando estava ausente em si, e sente falta de tê-lo vivido em si. Assim imagino. Pois uma hora é preciso despertar.

    VIVA A POESIA! Mesmo cantada em prosa.

  4. Anonymous disse:

    Estava com saudades dos seus textos em especial deste.
    Em pensar que aquele dia viraria um texto tão bonito, valeu apena as lágrimas daquele dia.
    Também li outros e gostei muito.

    bjs
    T

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