ludwing.

Silêncio absoluto. Ele estava encapuzado de luto no centro de uma encruzilhada. De certo, esperava alguém.
Não era a velha espera, nem mesmo ele era também.

Tinha um gosto enorme por música clássica, apesar do sonho antigo de comprar uma guitarra – que não sabia tocar mas queria colar um adesivo dizendo algo como “Esta máquina mata fascistas”.

Era tarde da noite e ele continuava a esperar. Mesmo estando um pouco fora de seu estado normal.

“É o cenário perfeito para ouvir Beethoven”, pensou enquanto punha os fones. “Sem a intromissão dos ruídos do mundo”.

Play.

A primeira faixa era a Sonata Claire de Lune. Bela, autêntica, talvez um pouco triste mas ao mesmo tempo forte e inspiradora.

Ele nunca soubera o nome da composição, mas sentia com paixão cada uma das notas dançando pela escala, ferindo as cordas do piano. Talvez ferisse um pouco ele também.

Mas naquela noite fria, estava excitado demais para se conter por isso. Começou a sentir a melodia transcendendo o sentido da audição e se mostrando tão potencialmente erótica que sentiu um leve frio na barriga.

“Ludwing van!”, lembrou. Parecia ouvir a voz do protagonista dA Laranja Mecânica dizer. Lembrou da cena em que ele possuía duas mulheres ao som de Beethoven. A música não era a mesma, mas isso não era importante. Primeiro, possuía as duas, depois uma sozinha, e então a outra, novamente a primeira e…

Por reflexo, olhou a toda volta e confirmou estar sozinho. “Mulheres são sortudas”, invejou, “podem estar excitadas no meio de um velório e ninguém percebe, a menos que elas queiram”.

Estava sendo traído por sua imaginação. Na sua mente via formas femininas claramente excitadas – não necessariamente em velórios.

A riqueza de detalhes lhe ofereciam um profundo deleite. Suspirou entre lacinhos se desfazendo, cintas, piercings, línguas, calcinhas, texturas macias, sabores adocicados e cheiros inebriantes. Se combinavam como acordes, compondo a música para os seus sentidos.

Aquela experiência o encantava de tal maneira, que desejou tocar-se ali mesmo. A música terminou e ele se deteve.

Dois segundos de intervalo até a próxima faixa. Aproveitou o resquício de sanidade para olhar à sua volta novamente e garantir estar seguro. Uma nova melodia começou.

“Só posso estar enlouquecendo…” pensou e fechou os olhos a saborear cada instante. Manteve a mão afastada de seu sexo usando enorme força de vontade. Estava vulnerável ali, no meio daquele cruzamento ao qual o destino lhe impôs que esperasse por algo, ou alguém. Porém, a mesma vulnerabilidade e risco que o intimidavam o excitavam de sobremaneira.

Resistiu.

As imagens não lhe deixavam – e ele assim desejava. A empolgação era tamanha que imaginou que a chegada do êxtase era inevitável e estava próxima.

Se policiou para não emitir nenhum ruído, porém não conseguia evitar o gemido abafado que deixava escapar cada vez que soltava a respiração que prendia por vários minutos. O volume estava tão alto que ele nunca poderia ouvir.

Foi quando começou a imponente Sinfonia Nº5. Imediatamente se lembrou da face do candidato Enéas e brochou.
“Pobre Beethoven…”, lamentou enquanto seguia o caminho até sua casa.

Sobre bic azul

Uma caneta pode escrever qualquer coisa, boa ou ruim. Normalmente, ninguém liga muito se ela funciona. Mas, quando ela falha...
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4 respostas para ludwing.

  1. tina oiticica disse:

    Acompanhei com muita seriedade a narrativa. O último parágrafo me tirou do sério completamente.

    Muit bom, ótimo, jamaiis acreditaria que vocie tivesse tanto talento.

  2. ^Verônica Silva disse:

    Lembrou do Enéas sem barba -pequena – mais lastimável lembrança.

    Antes do fim meu comentário seria mais ou menos assim “Pênis… Basta um pensamento para levarta-los”

    Nos mais intelectuais : uma música.

    Pois é nos mulheres temos essa vantagens: nos excitamos… e podemos ter orgamos sem ninguém perceber. (Só se a gente quiser né mesmo?)

    E claro: Não broxamos.

    Abraços!

  3. Thais disse:

    muito bom…huahuahauhauah!!!

    da proxima pega mais leve com o personagem que gostava de musica classica…rsrsr!!!

    bjus

  4. Lia Drumond disse:

    É muito bom. Mesmo!
    E é foda usarem músicas tão boas pra coisas tão estúpidas, tipo caminhão de gás….

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