no metrô II.

Talvez, se tivesse que assistir a cena que ele próprio protagonizara, certamente ficaria envergonhado pelo seu modo de agir. Se por um lado, sempre foi muito gentil com todas as pessoas, por outro não fazia nada apenas para agradar alguém.

Essas duas características tão distintas e tão intrínsecas em sua personalidade criavam um delicado paradoxo sobre o qual se equilibrava diariamente.

Ela estava aborrecida por algumas respostas talvez sinceras demais, enquanto ele já havia gasto toda a sua capacidade de simpatia segundos atrás.

Embora ele fosse uma quase-amizade, daquelas que a gente nunca dá muita importância, conquistar sua inimizade, num momento como aquele, lhe parecia aterrador.

O silêncio estava ficando longo então ele arriscou um olhar carregado do único sentimento que lhe sobrava: a inocência. Claro que foi solenemente ignorado.

Dada a gravidade da situação, ele estava certo de que, se até o momento em que entrassem no trem que estava para chegar à plataforma não o fizessem juntos, certamente a hostilidade seria instalada em definitivo.

Escasso de sentimentos, apelou à razão: revisou a seqüência de fatos que lhe levaram a tal situação. A carta, a escolha da ponte, o último dinheiro que sobrou, o bilhete para o metrô para o centro, a abstenção de pensamentos, o encontro furtivo, o desinteresse e o conflito.

Infelizmente o raciocínio não lhe valeu de muita coisa, pois se ateve a pensar na ponte, repetindo em pensamento a irresistível sonoridade e ironia do trecho de uma canção que escutara poucas vezes. Dizia: “morreu na contra-mão atrapalhando o tráfego”.

E se justificava pensando que talvez alguém entendesse que não se tratava de algo apoteótico e que talvez também pudesse ser um pouco poético.

“Por que algo assim deveria significar menos? Nestes tempos onde a privacidade evadida grita…”, interrompeu. Não era uma justificativa plausível. Era, no máximo, uma desculpa de última. Sabia que o único motivo é que estava cansado de tudo isso. Talvez muito mais cansado de si próprio.

Respirou e concluiu o pensamento: “Tudo que tentamos fazer é tentar criar e preservar algum tipo de individualidade para depois exibí-la, às vezes como uma roupa cara na vitrine, mas na maioria, como pedaços de carne pendurados num açougue.”

A clareza de idéias o fez voltar ao mundo exterior. Pagou o preço de precisos segundo. Notou que ela, talvez inconscientemente, havia se afastado. Agora, uma fronteira feita de nada. E, exatamente por esse motivo, impunha-se com totalmente inexpugnável.

Ambos ouviram o som agudo e hipnótico dos trilhos vibrando, desestabilizando a fronteira feita de nada. Ao longe, já era possível ver algumas luzes distantes. Em alguns instantes o som do veloz gigante de metal tornaria impossível qualquer diálogo. Mas ele não tinha pressa. Agora, sabia exatamente o que fazer.

Se aproximaram calmamente da faixa amarela. O som ensurdecedor inundou a estação mas não parecia incomodar ninguém. Dezenas de rostos passaram em alta velocidade nas pequenas janelas. Quando estava prestes a parar, as pessoas davam passos incertos escolhendo a porta mais próxima ou uma outra que oferecesse mais chances de encontrar um lugar para sentar.

A distância da próxima porta obrigou a aproximação dela. Estavam juntos diante da porta. Ele sorriu. Ela não correspondeu, mas não o ignorou. Era educada.

Neste hiato da parada e o abrir das portas, ele perguntou:
_ E aí? Por que você não me conta o que tem feito ultimamente?

Ele sorriu com um novo brilho nos olhos. Foi a primeira vez que ele reparou que ela era bela. Descobriu que prestar atenção é uma exigência da beleza discreta.

Ela começou o que seria um longo discurso que tentou acompanhar como pode. Sorria para ela e para si, pois afinal, ainda era capaz de surpreender a si mesmo. Se ela sorriu, talvez ele não fosse de todo mau.

“Ainda bem que posso voltar com o mesmo bilhete”, pensou.

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Sobre bic azul

Uma caneta pode escrever qualquer coisa, boa ou ruim. Normalmente, ninguém liga muito se ela funciona. Mas, quando ela falha...
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6 respostas para no metrô II.

  1. Ziphakiel Valkrist disse:

    A coisa que mais apreciei…é o como é possível poetizar o cotidiano! Seu texto torna uma epopéia uma cena cotidiana com esse “bicho retraído” que nos tornamos. Gosto quando se comenta a dualidade de ser e não ser para os outros. O que parece irritar o protagonista é o fato de que ele de ser algo para outra pessoa que não seja ele mesmo. Que deve se dar ao trabalho de pensar no que os outros pensam ao seu respeito (olha o trocadilho!).

    E a “recompensa” é altamente inplícita e pessoal…pois ele mesmo não sabe distinguir se seus atos…seu esforço para ser “sociável” lhe é recompensado. E se essa recompensa era o que ele esperava encontrar…

    Me faço essa mesma pergunta (a dele), de o porque de eu estar encarando como esforço o que eu vejo nos outros como “cinismo”. E se vejo esse embate social como cinismo, porque cumpro com ele até o fim?

    Obrigado pelo texto! Pelos momentos de reflexão e identificação que ele me proporcionou!

    Ziphakiel Valkrist

  2. tina oiticica harris disse:

    Ai, que curti muito esse conto, muito mesmo. Estou precisando de literatura mais feliz que a realiidade.

    Tudo de bom para você, quem diria que a gente teria blogs com link, a partir da FD ?

    Bom 2007.

  3. _Maga disse:

    Caramba… como foi que conseguiste tirar toda essa carga dramatica de um fato tão sem importancia??? Parabéns!!! beijos

  4. Shunya disse:

    olha aí, só pra esclarecer: nem todas as vezes que esteve escrito ‘catubodva’ fui eu que postei. Sou caipira na net e peço desculpas se houveram comentários indevidos, pois não gosto de ofender sem ser atiçada para isso.

  5. Shunya disse:

    Sinto p´roximo ao expresso pelo Ziphakiel Valkrist. Embora às vezes, quem sabe por um tolo consolo, eu ache mais fácil ser cínico para escapar da leveza de lâmina que a realidade tem.
    O que faz diferença?

  6. mamendes disse:

    Sublime.
    Parabéns pelo trabalho e pelo blog de tamanha qualidade.

    []´s
    Mamendes

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