diário morto.

Além, 20 de janeiro de 2014

Querido diário, – hahaha, sempre quis escrever isso – hoje é só mais um dia igual aos outros por aqui. Sério. Puta tédio. Aqui, só muda a data. Aliás, quem diria que no Além se usaria o calendário gregoriano? Vai entender… dizem que é por causa dos feriados, para coincidir com o dos vivos… mas sinceramente não entendo que diferença faz.

Infelizmente, diário, não posso revelar muita coisa sobre aqui. São regras da casa, sabe como é? Tá bom, não sabe. Mas deve imaginar.

Antes que eu me perca (mesmo num “lugar” onde todos os caminhos levam ao mesmo destino), eu estava falando sobre o tédio.

Bom, vamos do começo: eu nunca tive um diário antes, mas eu tinha uma vida. Nem era das piores, mas eu vivia reclamando como todos os vivos que já conheci. Brinquei na infância, pirei com a adolescência, tive uma curta estadia na juventude, trabalhei pra caralho, fiz faculdade na área que trabalhava só pra ser promovido, casei por conveniência, tive filhos que… Bom, digamos apenas que eu tive filhos e que, durante o restante da vida, praticamente vivi em função deles. Fui um velho rabugento e safado. Sempre achei esse papo de serenidade na velhice a maior bobagem. Ficar velho é um saco. Nada que um AVC não tenha resolvido.

Chegar aqui é ótimo. Imagine quantas coisas você descobre e quantas dúvidas existências você finalmente tem a resposta. Imagine-se livre de questões como: Deus existe? De onde viemos? Para onde vamos? A seleção vai ganhar? Será que ela faz anal?

Ok, ok… nós não viramos Deus quando empacotamos. Claro que não se têm a consciência cósmica capaz de destrinchar a existência em um pensamento. Veja bem: nós, daqui, sabemos mais que os vivos (a começar pelo gosto que a morte tem), mas não sabemos de tudo. É meio complicado de entender mas a verdade é que não sabemos do que não sabemos.

Antes de dar um nó na cabeça do meu leitor imaginário, vou me ater a dizer que estar livre da ânsia dos pecados (e) da carne – não acredito que escrevi essa expressão -, suas glórias e misérias, é como uma bênção mas, de certa forma, um tipo de maldição também.

Como a eternidade é muito tempo, os mortos aqui matam (desculpe o trocadilho) o tempo como podem. Esporte não funciona muito bem pela ausência da física. Sexo então… Bom, a maior parte do tempo, todo mundo fala o que se lembra sobre de si mesmo e a vida que levou. Não muito diferente do mundo dos vivos, né?

Também assistimos a história da humanidade muitas e muitas vezes, nos mais variados tempos. É legal, mas cansa.

Tem um pessoal decidido a se comunicar com os vivos. Conheci uma alma que quase consegui piratear um faixa dos sonhos, mas foi pêga e hoje não inspira nem livro da Zibia Gasparetto. Surpreso? Pois é… a punição também pode ser eterna. A coisa aconteceu há anos e ainda é notícia por aqui.

Não pense que por isso somos menos felizes aqui. Duvido que algum vivo já tenha experimentado algo assim. A sensação de felicidade é tão extraordinária (mesmo que repetida) que eu duvido que algum vivo já tenha experimentado algo parecido. Nem os mais putanheiros, cocainômanos & afins. É incrível, mas o único vestígio de saudade que temos não é dos grandes amores, amigos, lugares ou momentos especiais.

É da dor que sentimos falta. E essa falta, por menor e mais tola que pareça, é o que supre sua quase-falta.

Engraçado. Quem diria que a perfeição existe em algum lugar? Ok, já sei, não é bem um lugar…

Mas isso não importa só agora vejo que fui ingênuo ao começar esse diário. O que vou escrever amanhã? O mesmo que hoje?

Um Ctrl+C, Ctrl+V sobrenatural? hahahaha. Patético.

Não… Me comprometo a voltar e preencher estas linhas apenas quando algo realmente acontecer. Pelo que soube, não deve demorar tanto assim. E eu posso esperar.

A pena é que você, meu leitor imaginário ou não, já saberá de tudo até lá. Não que eu me importe…

Bom, é isso, “querido diário”. Até o fim de tudo que existe.

Anúncios

Sobre bic azul

Uma caneta pode escrever qualquer coisa, boa ou ruim. Normalmente, ninguém liga muito se ela funciona. Mas, quando ela falha...
Esse post foi publicado em Contos Absurdos e marcado , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

3 respostas para diário morto.

  1. Thahy disse:

    uau
    acabei de dizer que você é genial
    mass

    VOCÊ É UM ESCRITOR DE MÃO CHEIA!
    Putz, bic…
    ameei o texto!
    Parabens meu querido Amigo!

  2. _Maga disse:

    Caramba! Muito, muito, muito, muito bom!!!
    Parabéns, parabéns, parabéns…

    Gostei demais, Bic…

    nem sei o que dizer direito, mas a construção do texto, a forma como as coisas foram colocadas, as sacadas… tudo muito genial!!!!

    Assino embaixo do comentário da Thahy…

    beijos

  3. Deslexo disse:

    Caramba cara… vou ajudar os dois acima e rasgar mais um pouquinho da seda…
    Texto MUITO bom…
    Parabéns…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s