saudade.

Entraram juntos no coletivo das sete horas. O resultado do exame sairia hoje e, de tão ansiosa, ela resolveu sair bem cedo.

O garoto foi com ela, embora ela não quisesse. O fez subir na frente por segurança. Os degraus eram altos demais para suas pequenas pernas, mas era visível a sua felicidade de estar ali, com ela. Ou quem sabe fosse a cruel e conhecida felicidade dos inocentes.

Felicidade essa, que parecia não perceber ou não se importar com o ar aborrecido dela. Pois bem, além de indesejado, ele estava feliz. Há algo mais imperdoável para um aborrecido do que a felicidade?

Nesse caso, talvez houvesse, mas ela não saberia precisar.

Ninguém lhe ofereceu um lugar. O garoto não se importou muito em ficar de pé imediatamente, se segurando como podia e achando engraçado desequilibrar às vezes.

Ela acabou se divertindo também com os trejeitos do moleque. Ele fazia as mais variadas expressões, sem saber o que significavam. As expressões não refletiam seus sentimentos mas eram sinceras. Como? Ora, ele apenas tentava descobrir para que elas serviam.

A viagem seguiu e ambos estavam se cansando. No coletivo inteiro, ninguém se olhava nos olhos, a não ser eles. Nem mesmo as duas senhoras do banco da frente, que falavam mal de cada nome citado na conversa.

Ela estava pensando no quanto “a rotina faz as pessoas se comportarem feito gado”, quando o garoto ensaio um tipo de dança, ao som alto dos fones de um rapaz à sua frente, que dormia encapuzado e abraçado a uma mochila gigantesca.

Ela conteve o riso e gesticulou para que ele ficasse quieto, mas acabou não foi convincente pois, numa freada brusca, o garoto desequilibrou totalmente. Ao ajudá-lo, ela acabou por esbarrar no rapaz da mochila gigante que acordou muitíssimo assustado.

Os olhos vermelhos olharam em volta com imenso espanto, a boca um som ininteligível – provavelmente um palavrão e as pernas passaram apressadas entre as pessoas, mas a mochila que a pouco era um afago, agora era uma âncora. Uma cena de comédia pastelão da qual ninguém ria. Quem gostaria de ser o figurante que leva torta na cara?

Um lugar vago, enfim. Ela se adiantou para sentar-se e o garoto fez bico, estava cansado. Ela sentou-se normalmente, tocou a mão do garoto e sorriu enquanto o colocava em seu colo.

Ele a olhou novamente nos olhos, sorriu e adormeceu pouco depois, como se desfrutasse do mais tenro e aconchegante dos leitos.

Ela chegou a tirar um breve cochilo, mas estava nervosa demais com o resultado do exame. Não perderia o ponto por nada. Tanto que, em pouco mais de meia hora, acordou o menino ainda uma parada antes do destino.

O desembarque foi tranqüilo, – salvo pelos protestos do garoto – já que o ônibus estava vazio. Eram pouco mais oito horas. Dessa vez, preferiu levá-lo no colo a ter que diminuir suas passadas.

Viraram na primeira esquina e se dirigiram ao belo prédio do outro lado da rua. O garoto abriu os olhos para contemplar as luzes ofuscadas da fachada, mas não se interessou muito. Estava com sono.

Cansada, o fez ficar de pé logo depois que subiu a escada. Mesmo assim, sem jeito, ele lhe sorriu.

No balcão, ela entregou os documentos para a retirada. Em poucos (não menos longos) instantes, ela recebeu o envelope. Agradeceu automaticamente e foi até a porta, talvez buscando alguma privacidade.

Abriu o envelope com um certo esforço e cuidado. Fechou os olhos, respirou e leu: “Cecília blábláblá… Idade: 19 anos… método: blábláblá”.

A primeira lágrima rolou pelo seu rosto. Leu novamente: “NEGATIVO”. Ela sorriu, livre do peso que carregou por dias e dias. Seu mundo voltava a ser o que era.

Feliz, tranqüila, segura… livre, enfim. Guardou o papel na bolsa e procurou o garoto ao seu redor. Queria abraçá-lo e girar com ele por aquela recepção!

Mas agora girava sozinha à sua procura. Correu até a rua e não avistou ninguém. Desesperou-se.

Voltou para dentro a procurar. As recepcionistas a olharam com espanto e certo desprezo.

Então veio a segunda lágrima. Diferente da anterior, esta ficou contida em seu olho, embaçando a sua visão.

Ela se desculpou com as moças e saiu.

Então, embarcou sozinha no ônibus das oito e meia. Junto com ela, apenas da punição dos livres: a saudade – até de coisas que nunca existiram.

Sobre bic azul

Uma caneta pode escrever qualquer coisa, boa ou ruim. Normalmente, ninguém liga muito se ela funciona. Mas, quando ela falha...
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14 respostas para saudade.

  1. Ivan disse:

    Bom ritmo, boa história e final surpreendente.
    Assim que se faz, pupilo!

    Parabéns!

  2. Cláudio disse:

    Muito bom seu conto, conciso, bem escrito e surpreendente.

    Em tempo: já atualizei seu endereço lá no De Língua.

    Abração.

  3. Daniel disse:

    Muito bom!!!!!!!!!! Quem não tem mundos paralelos?

  4. Isreal disse:

    Posso ver as cenas desse conto acontecendo enquanto leio, ficou muito bom mesmo!

    Meus parabéns!

  5. Meireana disse:

    Achei este texto maravilhoso!!! Parabéns! Me surpreendeu.

  6. aderito disse:

    muito bom!

  7. liadrumond disse:

    Ah, eu adorei! Muito bom o final!

  8. thahy disse:

    nossa hip… vc me fez imaginar como seria minha vida sem meu guri

    é… assustador!

  9. Mamendes disse:

    Meu moleque fez 4 meses esses dias e tive a mesma sensação da Thahy… Quando os filhos nascem o nosso mundo se transforma, profundamente, e quase perde o vínculo com o mundo anterior.
    Por várias vezes eu tive medo de como seria a vida após o nascimento do herdeiro, e imaginei se, quando isso acontecesse, eu estaria perdido num mundo desconhecido…
    A verdade é que eu estava perdido antes.

    []´s
    Mamendes

  10. Carol Costa disse:

    Bem bão, rapaz Canetinha.

  11. valéria disse:

    Nossa! Adorei!!!!!!!!!! Muito, muito, muito bom…

  12. paulo disse:

    um final terno, delicado e surpreendente. emociona sem ser piegas.
    congrats, bic azul.

  13. Cribba Jones disse:

    Já me vi no papel do garoto.
    Muito foda, parabéns!

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