video game III.

Acordando numa sala sem portas ou janelas, Guilherme jamais poderia precisar que horas eram, ou quanto tempo teria ficado ali.

Antes que tentasse, levou um susto. A sensação de estranhamento ao acordar fora de casa que tinha na infância o seguiu tanto nos diversos quartos que freqüentou na juventude, quanto em alguns anos após o casamento, voltou com toda a força.

Fechou os olhos e respirou. Era o seu botão pause.

Percebeu-se completamente nu e só. “Tudo que se é realmente, revela-se neste momento.”

Mal concluiu o pensamento e um retângulo iluminado surgiu à sua frente. Deitado, teve a mesma sensação que o astronauta Bowman teria tido com o monólito à sua frente.

Ao contrário da dúvida essencial humana, este retângulo deveria ser umas destas TVs de plasma com dezenas de polegadas. A situação não melhorou muito para Guilherme, pois foi de Bowman a Winston, em frente a sua teletela.

Em volume muito alto, o vídeo ordenava que ele identificasse uma série de figuras simples, letras, números e então, palavras. A tal “teletela” corrigia impiedosamente qualquer erro, obrigando Guilherme a se concentrar em cada resposta.

Completada a seqüência cognitiva, iniciaram os movimentos com o pescoço, os membros e sua dolorida face, também corrigidos severamente. Os exercícios mentais e físicos o ajudaram a se recobrar a consciência e os movimentos em pouco mais de uma hora.

O vídeo seguiu com demais informações, recomendando o treino intenso da assinatura, precaução com o sangue e o tranqüilizando com relação às digitais. Tudo fazia parte daquilo que Guilherme já esperava.

Levantou-se, vestiu uma das roupas e enfiou as demais dentro da mochila preta, assim como os outros itens, enquanto conferia a relação do vídeo: óculos escuros, alguns produtos de higiene pessoal, um lanche, papel e caneta.

Ficou intrigado apenas com o telefone celular, que não constava na relação mostrada no vídeo, por isso, o escondeu.

Abriu a carteira e viu uma quantia razoável. Ao conferir se as notas não estavam em série viu a foto em um de seus documentos e deixou a carteira cair. Guilherme não tinha notado que as luzes aumentavam gradativamente desde que acordara – para que seus olhos se acostumassem – e largou a carteira assustado. Abaixou-se, abalado, juntando passaporte, passagens e dinheiro no chão.

Mas quando seus olhos se acostumariam com o que, só agora, podia ver no espelho?

Incrédulo, permaneceu parado ao tocar seu rosto por alguns segundos. Depois lembrou que isso também estava dentro daquilo que ele esperava.

No término da apresentação, a imagem não desapareceu. Mas apenas mostrava a indicação do botão vermelho e ordenando repetidamente que saísse e advertia para que não votasse mais lá.

“Voltar? Para encontrar um lugar vazio? Ou para uma bala me encontrar. Não mesmo!“, pensou enquanto olhava o quarto pela última vez.

Pressionou o botão vermelho e da parede se abriram duas portas de elevador. Nenhum botão lá dentro. Não seria impossível determinar se subia, descia ou se avançava. Talvez nem se movimentasse, o que seria bastante engenhoso. No entanto, o ruído do motor era alto demais para que ele tentasse descobrir.

Um fim de tarde avermelhado o recebeu. Andou por alguns quarteirões até pegar um táxi para o aeroporto.

Poucos minutos antes do embarque, sentia uma forte pulsação de nervosismo que o tampava os ouvidos e o impedindo de ouvir o celular tocar.

Uma das funcionárias da companhia aérea, o lembrou gentilmente que falasse a vontade pois, no avião ele deveria desligar o aparelho. Ele agradeceu assustado e atendeu:

_ A-alô!

_ Gabriel?

_ … sim! É o Gabriel.

_ Hesitou em responder, Guilherme. Treine mais.

_ … o que você quer?

_ Já que perguntou, admito que fiquei curioso. Nunca peguei um caso assim.

_ Como?

_ Você tinha uma boa família, uma esposa linda, dinheiro e poder… Seus inimigos não o desafiariam. Nenhum crime que tenha sido descoberto, dívidas gigantescas, mulheres proibidas ou qualquer outro motivo claro para fugir.

_ E?

_ Sei que não é da minha conta mas… Por que fez isso?

_ Tem razão. Não é da sua conta. Aliás, nada mais será da sua conta quando eu disser aos seus chefes o que você fez.

_ Eu fiz apenas um bom trabalho. Todos acreditaram, viram o corpo. Você está morto, Guilherme! MORTO!

_ … eu sei…

_ Achei que ia se lembrar da minha voz.

_ Me desculpe, ainda estou nervoso. Me acostumando com tudo…

_ Arrependido?

_ Não.

_ Melhor assim.

_ Por que se arriscou? Escondeu o telefone…

_ Engraçado. Você me perguntou o que eu queria, mas eu te liguei porque achei que fiquei devendo algo que você queria…

_ O que?

_ Roberto.

_ Não conheço nenhum Roberto. E pode apostar que se conhecesse, não ia querer!

_ Hahahahaha!

_ Qual é a graça?

_ A MINHA graça! “Roberto” é o meu nome. Você me perguntou, não foi?

_ Hahahahaha! Tem razão! Me desculpe!

_ Tudo bem. A piada é boa.

_ Aquela sua, dos zumbis, foi melhor.

_ Obrigado!

_ Você não ligou por isso.

_ Verdade. Eu quero saber porque fez isso.

_ Me apaixonei por um velho armênio.

_ Ainda não se cansou das piadas?

_ Certo. Como eu explico…?

_ Apenas fale!

_ Gosta de video game, Roberto?

_ Ah, não! Metáforas sobre como “a vida é um jogo”, não! Eu esperava mais de você…!

_ Estou falando de video game. É diferente.

_ Ok, eu já brinquei um pouco com isso. O que tem a ver?

_ Eu já venci a fase final. Escrevi meu nome e… veja! Eu ainda tenho créditos!

_ Então você quis dar um reset na sua vida?

_ Era o único jeito de jogar com outro personagem.

_ Caramba. Prefiro a explicação do velho…

_ Não prefere não.

_ Tá, mas…

Roberto ouviu do telefone a chamada para o embarque.

_ Olha, eu preciso ir.

_ Eu sei. “Game over”, então. Boa sorte, Gabriel.

_ Obrigado. Pra você também.

Gabriel acordou diversas vezes durante o vôo noturno. Nada que um pouco de whisk não resolvesse.

O celular nunca mais tocou, mas Gabriel o levou consigo pelo resto de seus dias. Não por esperar uma nova chamada, nem por sentimentalismo.

Ele acabou se viciando nos joguinhos.

Sobre bic azul

Uma caneta pode escrever qualquer coisa, boa ou ruim. Normalmente, ninguém liga muito se ela funciona. Mas, quando ela falha...
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2 respostas para video game III.

  1. thahy disse:

    humm…
    acho q me perdi no meio do caminho😮

  2. Mamendes disse:

    Que nada, eu sabia que esse Guilherme era perigoso.
    Onde já se viu largar mulher e filhos para encarar uma nova vida de aventuras.
    E essa coisa do velho armênio me pareceu mais um ato-falho que uma piada.

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