a despedida.

Já era quase meia noite. Como sempre, ele estacionou a poucos metros da casa dela, mas dessa vez não desligou o carro e ficou a observando calado alguns instantes, esperando que ela quebrasse o silêncio:
_ Adorei a noite.
_ Eu também.
_ O jantar estava excelente!
_ Que bom que você gostou.
_ Você sabe mesmo como escolher um vinho.
_ Só não sei parar de bebê-lo…
_ Hahaha! Seu bobo! Eu te amo, sabia?
_ Eu também te amo, linda.
_ Adoro quando você mente pra mim.
_ Eu sei, hahaha.
Deram um beijo longo. As mãos dele tentavam percorrer o corpo dela, que então, o abraçou.
As carícias ficaram mais intensas e então soltaram um do outro como num susto.
_ Melhor parar… melhor parar…
_ … também acho.
_ Ou não? – ela sorriu convidativa.
_ Estamos no meio da rua…
_ Isso é verdade.
_ Eu te ligo amanhã.
_ E se…
_ Se?
_ Você subisse só um pouquinho… eu tenho um vinho excelente aí.
_ Já chega de vinho para mim hoje.
_ A gente pode ficar mais a vontade…
_ Acho melhor não… hoje é segunda.
_ Desde quando você liga pra isso?
_ Desde que inventaram as malditas videoconferências com a matriz lá do Rio. Eles sabem que hora eu cheguei e ainda conseguem ver minhas olheiras.
_ Maldita tecnologia!
_ Maldita…
_ Tem certeza?
Ele ergueu os ombros e cerrou os lábios.
_ Então está na hora do senhor ir dormir. Nada de ficar ensaiando trechos do relatório até tarde da noite, viu?
_ Não prometo nada…
_ Eu sei…
Beijaram-se novamente. Dessa vez com uma volúpia aflita dos que sabem que conterão seus desejos. Lentamente, ela deixava escapar o lábio inferior dele que estava entre os seus, virando-se um pouco:
_ Não me provoca…
Ele interrompeu o beijo pouco depois e respirou fundo enquanto a olhava em silêncio.
_ Eu detesto quando você me obedece.
_ Eu sei…
_ … se cuida.
_ Você também.
_ Me liga amanhã?
_ Claro.
_ Então, tchau, amor.
_ Tchau, amor.
Fechou a porta na segunda tentativa e ergueu a mão ao se despedir dele, que sinalizou de volta sorrindo.
Ela adentrou pelo portão de ferro, depois pela porta de vidro que dava para o saguão principal e subiu pelo elevador até o 9º andar acompanhada das incertezas e expectativas que seguem os amantes.
Ele engatou a primeira marcha e parou no primeiro semáforo, depois de duas quadras, sempre atento a rua já sem movimento. Pegou o celular do porta-luvas e acionou a rediscagem automática.
_ Oi, amor. Tudo bem… Olha, já estou chegando, tá? … Preparou, é? Hm, que delícia… Me espera, então… vou te amar como nunca…. outro. Tchau.
Fechou o telefone e expirou, aliviado:
_ Putz… Ainda bem que deu tudo certo. Se minha amante desconfia que eu dispensei ela pra transar com a minha esposa, eu tava fodido…

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15 comentários em “a despedida.

  1. Ai ai…
    Eu estava aqui achando tudo tão lindo, o carinho entre o casal, e tu me trazes a realidade, nua, dura e crua como uma cachoeira de água gelada!
    LOL!
    Muito bom!
    Abraços!

  2. a, a capacidade do homem de amar muitas, sem amar ninguém.

    Me comoveria, não fosse o ceticismo rs

    beijos

  3. gostei desse comentário…rs…a esposa em primeiro lugar!
    já o segundo, o terceiro, quarto – e por aí vai – lugares podem ficar com as amantes…boa!!!

  4. Fala Hipolito!
    Gostei bastante do texto. Personagens sacanas são legais sim hehe, apesar de ter gente nos comentários que se revoltou com a promiscuidade no mundo.

    E o sacana que se guarda pra pegar a esposa até que tem um pingo de dignidade. haha

    Fio, atualizei com aquela história nova. Passa lá depois no gusmorais.wordpress.com.

    Abraço!

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