da espera.

Foi na sala de espera da dentista que viu um rosto conhecido na capa de uma revista velha.

Era uma foto de detalhe numa revista de famosos, daquelas que ele sabia que ela nunca se interessou em folhear. Ao lado dela, estava um figurão ao qual ele era apresentado ali mesmo, com seu nome e sobrenome, logo abaixo da foto.

Não foi uma apresentação cordial. Ele o encarou notando os detalhes possíveis para uma foto daquele tamanho e não se apresentou de volta.

Ingenuamente, tocou a imagem dela com a ponta dos dedos. Não era como naquelas cenas de filmes, nas quais o ator que toca delicadamente a foto e a trilha sonora suave nos fazem imaginar que o personagem realmente sente a tez de quem ama apenas com a ternura de sua saudade.

Ao contrário, textura era dura e gasta. A trilha era uma música ambiente baixa demais para evitar que se ouvisse o irritante som do motorzinho furioso.

Pensou apenas no quanto a foto não fazia jus à beleza dela. Beleza esta, que agora posava ao lado de alguém que não era ele.

Ele a teria registrado melhor. Fotografaria o seu melhor ângulo.

E aquelas roupas? Parecia que existia um rigoroso manual sobre como se vestir numa capa de revista de famosos. As mesmas cores, os mesmos óculos. Ela não se parecia em nada aquela menina que perdia a compostura com poucos copos e dormia apenas com uma camiseta preta e surrada da capa do álbum Ten, do Pearl Jam.

“I know someday you’ll have a beautiful life/I know you’ll be a star/In somebody else’s sky, but why, why/Why can’t it be, oh can’t it be mine?”

Uma lágrima rolou pelo seu rosto. Quanto tempo fazia desde a última vez em que se viram, apressados, naquela avenida? Será que eles já estavam juntos?

Ele se lembrava. Não trocaram sequer uma palavra. Ela estava com uma amiga que falava bastante. Ela apenas o olhou indecisa, tentou sorrir mas não conseguiu.

Sozinho, ele sorriu para ela, mas se arrependeu logo em seguida. Sabia que seus lábios carregavam o mesmo pesar que doía forte em seu coração.

Doía tanto quanto agora voltava a doer naquela sala.

Começou a buscar a data da publicação em meio a toda aquela informação inútil. Foi quando a porta se abriu e seu nome foi chamado. Fez um último esforço na procura, mas poucos segundos depois, se levantou sem que tivesse notado as letras miúdas ao lado do código de barras.

Entrou no consultório hesitante. A dentista tentou confortá-lo, acreditando que seu comportamento era fruto do medo do tratamento doloroso, e mentiu.

Durante mais de 2 horas, ele sentiu a força da dor física tomar partes de seu corpo que ele nem se lembrava que tinha.

Seus olhos suplicavam piedade. Mesmo aplicada por várias vezes, a anestesia acabou tendo pouco ou nenhum efeito. Sentia sua carne e ossos indefesos sendo tocados pela fúria dos metais em busca de tecido cariado.

Instintos de sobrevivência transformavam sua dor em ira. Visualizou um plano em que matava a doutora e fugia. Não era um bom plano e ele não seria capaz de fazê-lo, mas o fato é que ele simplesmente precisava fazer algo para acabar com seu sofrimento. Qualquer coisa.

Antes que ele esboçasse qualquer reação, a dentista parou. Desculpando-se, ela voltou a dizer que era necessário realizar o procedimento inteiro num mesmo dia. Tentou puxar conversa, sem nenhum sucesso, enquanto juntava as substâncias para selar o que restou do dente.

Terminado o serviço, ele saiu do consultório desolado com uma respiração intermitente.

Com os olhos marejados buscou, por alto, a revista na sala de espera e a encontrou nas mãos de uma criança jovem demais para saber ler. Chamada em seguida, ela jogou-a na cadeira e entrou no consultório.

Sem se importar, ele virou-se e saiu sem olhar novamente para a direção em que a revista estava. Seria inglório para seu amor perdido defrontar-se com uma dor maior que a dele.

Sobre bic azul

Uma caneta pode escrever qualquer coisa, boa ou ruim. Normalmente, ninguém liga muito se ela funciona. Mas, quando ela falha...
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7 respostas para da espera.

  1. valéria disse:

    muito, muito, muito bom…adorei.

  2. Ju disse:

    que romântico… ou não… odeio dentista!

    mas adorei a crônica.

  3. Marcela Ortolan disse:

    “Era inevitável: o cheiro de amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados.” Gabriel García Màrquez

    O consultório devia estar cheirando a isso quando ele saiu de lá…

    Lindo texto, parabéns minha caneta preferida…😀

    beijos

  4. thahy disse:

    putz
    parabéns bic
    o melhor q já li até agora…

    e olha q …

    putz.

    parabéns, meu querido!

  5. Bic Azul!
    Que belo conto!
    Adorei!
    Parabéns!

  6. tina oticica disse:

    Li rapidinho, a la INternet mas volto, que o teu blog está muito atraente linguistica e esteticamente. (rima não foi proposital.)

  7. Lia Drumond disse:

    Adorei o texto e o suspense. Dentistas são um saco, mesmo… Bjs

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