8 anos.

Felipe sabe que não devia estar desobedecendo ao seu pai. Ele mesmo sente os como se seus olhos queimassem enquanto olha para luz flamejante da solda, mas está encantado com aquilo. Ele não sabe para que serve. Seu pai explicou que era algo como “uma cola para ferro”. Como assim?

Mas agora ele não via nada além do brilho e não poderia ouvir nada além do som elétrico e assustador.

Pensava no quanto a máscara que seu pai usava o fazia parecer um super-herói quando foi notado.

Seu pai parou de soldar e ele quis correr, mas agora não conseguia enxergar nada além de uma mancha branca. Ficou desorientado e tropeçou sozinho dando, caindo com o rosto virado para a areia quente do meio-dia. Chorou.

Seu pai desceu poucos degraus e atirou o equipamento ao chão para socorrer seu único filho. Limpando a terra de seu rosto e dos seus cabelos, ele o colocou em seu colo.

_ Por que você faz isso? – disse ele, franzindo a testa. – Eu sei que você tem olhos atentos, mas precisa me obedecer. Preciso dos seus olhos atentos, e não queimados.

Seu choro, que era mais pelo susto do que pela dor, foi desaparecendo, mas suas lágrimas não. Estas agora eram de tristeza: ele o tinha decepcionado.

Então seu pai secou seu rosto com a manga da camisa e sorriu, mas Felipe não viu o sorriso. Ainda estava com a cabeça abaixada, contraindo seus lábios entristecidos.

Só quando o seu nariz começou a escorrer e seu pai limpou com mesma manga da camisa, Felipe levantou a cabeça e voltou a ter a certeza que ele o amava.

_ Vá brincar lá dentro. Eu ainda tenho muito trabalho pra fazer aqui.

_ Eu arrumo as coisas pra a gente ir.

_ Não. Não hoje. Não dessa vez. Agora vá.

Felipe não entendeu, mas se foi, cauteloso, já que sua visão ainda não estava plenamente restabelecida.

(…)

Quase como que por encanto, às seis da tarde o céu escureceu rapidamente. Felipe não estava acostumado com isso. Ficou muito apreensivo e amedrontado. Queria sair de lá. Para qualquer lugar que fosse.

Então seu pai entrou no abrigo. Os últimos raios solares desenharam sua silhueta. Felipe o via forte e confiante, mas também exausto. O fato é que seu rosto inseguro era acolhido pelas sombras e Felipe via naquela forma, apenas aquilo que imaginava.

Ele pendurou mais um gancho na bateria fazendo a luz se acender. Felipe não tinha mais medo.

Seu pai então se sentou na bancada, ao lado do rádio desmontado, e disse:

_ Vamos dormir aqui esta noite.

Passaram as grossas correntes pelas fendas nos portões e trancaram-se.

_ Temos de economizar. – disse o Pai de Felipe enquanto apagava a luz.

Não demorou para que ouvissem uivos que não eram do vento. Primeiro distantes e depois mais perto. Felipe apenas fechou os olhos e recostou-se sobre o peito do pai, que lhe tampou o ouvido.

Felipe respirou mais fundo e pegou no sono, em paz.

Os uivos ficaram mais intensos, mas o pai de Felipe não se abalou. Nem mesmo com o som ressonante do ferro, após o primeiro e forte impacto. Adormeceu acariciando os cabelos do filho:

“Vai demorar, mas se eles vão desistir.” – pensou e então olhou para o Felipe uma última vez e concluiu – “Mas enquanto ele estiver aqui, eu não vou desistir.”

(…)

Na manhã seguinte, Felipe acordou seu pai contando que havia sonhado com a mulher mais linda que já viu. Enquanto seu filho contava, ele finalmente sentiu-se aliviado da culpa de não ter nenhuma foto da mãe do garoto e sorriu.

Sobre bic azul

Uma caneta pode escrever qualquer coisa, boa ou ruim. Normalmente, ninguém liga muito se ela funciona. Mas, quando ela falha...
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10 respostas para 8 anos.

  1. Marcela Ortolan disse:

    O texto está ótimo, bem escrito! Só a história parece um pouco confusa, talvez essa seja mais uma qualidade do texto, mas ainda estou digerindo-o…

    adorei!

    Um abraço

  2. Texto bem escrito,apesar de não entender muito bem o desfeixo não há como explicar determinados contos,eles são o que são.Beijuuss

  3. valéria disse:

    então tá. se é só uma historinha… uma historinha que nos deixa intrigados. e aos nove???
    ah, ia esquecendo…gostei muito!

  4. Gus disse:

    Fala Hipólito!
    O comentário dessa farei através da minha releitura em quadrinhos. Algo no estilo do “Distante” com que abri meu blog. Aguarde a surpresa – nesse caso, prefiro fazer minha interpretação e já te mostrar pronto.
    Já adianto que ficou muito bonito e vai valer um quadrinho de imagens muito bonitas também!
    Abraço,
    Gus

  5. Fânny disse:

    Mesmo sabendo que é errado tomarmos certas atitudes, continuamos à tomalás.
    E com certeza, mesmo errando em toda a nossa vida, eles nunca iram desistir de nós !!!

    Adoro os contos… mt bem escrito, nos proporcionando o livre arbítrio de interpretação !!!

    Quero mais textos novos!
    Beijos !

  6. Priii disse:

    Bom des que estivesse com o pai felipe nao sentiria medo..
    pq quem ele desejara a proteje-lo estava ali e corajoso…
    lindo blog bjus..

  7. Lia Drumond disse:

    Eu, particularmente, adoro histórias que dão o que pensar. Prefiro a coisa no ar do que a decepcionante conclusão. Adorei. Bjs

  8. okashira disse:

    Muito bom esse conto.

  9. Okashira disse:

    muito boa a estória!

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