do absurdo.

Então nasceu um dia como nenhum outro. O sol brilhou azul num céu vermelho vivo, com poucas nuvens alaranjadas.

As florestas estavam todas prateadas, onde papagaios cinzas se camuflavam. Nas savanas rosadas, zebras multicoloridas corriam como antes, pois os leões, cujas jubas agora mais lembravam labaredas, jamais distinguiram as cores.

A mudança na cor do cimento fez a cidade adquirir um constrangedor tom de azul cueca. Pelo asfalto branco gelo, cada vez mais sujo de poeira verde limão, pessoas olhavam seus carros e pensavam no problema que teriam para mudar a documentação para a nova cor.

Especialistas analisavam, de dentro de seus ternos bordô e escritórios démodés, os impactos das mudanças na coloração em tudo – da economia à moda e, em menor escala, no meio ambiente. Nada concluíram.

Quando a noite oliva caiu, estrelas fúcsia cintilaram ao redor de uma lua púrpura.

Na TV, que agora mais lembrava uma caixa de luzes difusas com um rádio acoplado, uma mulher sugeria que alguma mudança no nosso sol pudesse ter causado o fenômeno. Um homem de voz irritante, falava de gases atmosféricos que determinavam a luminância das cores. Ambos se baseavam na mesma teoria: “Não vemos as coisas. Vemos a luz que reflete nas coisas. Cada superfície e substância reagem de determinada forma”.

O psicólogo defendeu: “Sabemos que isso é azul porque alguém nos disse isso quando crianças. Quem garante que o seu azul é o meu?“

Um médico, muito polido, dizia que uma possível pandemia poderia ter atingido a população mundial, causando um transtorno ótico ou cerebral: “Nossos olhos absorvem a luz e identificam as cores por células chamadas ‘cones’. Um daltônico, por exemplo, possui um problema nestes cones para determinadas frequências de onda”

Todos ficaram em silêncio. Não pela propriedade com que ele dizia, mas pela palavra “pandemia” inserida no discurso.

A apreensão era tamanha, que ninguém percebeu os furos enormes nas teorias.

Menos de 24 horas após o ocorrido, a imprensa já havia desinformado o suficiente. Ninguém sabia de nada. O que fazer na falta de fatos? O que os humanos fazem melhor: inventá-los.

Místicos falavam enigmaticamente de energias se revelando, mas não diziam coisa com coisa. Alguém falou de Nostradamus e achou alguma frase com sentido distante para explicar.

Religiosos viam os sinais do apocalipse, que só poderiam vir de um Deus muito estravagante.

Os paranoicos balbuciavam ataques alienígenas, armas governamentais e dominação mundial, como fosse necessário dominar algo hoje em dia.

Para decepção de muitos, mesmo diante de tamanho frenesi, nada mais aconteceu.

Mais de 72 horas depois, nada mais acontecia. Ninguém adoeceu, nenhum meteóro, OVINI, inversão polar ou desastre natural. As pessoas tiveram de voltar ao trabalho e aos estudos.

Já se passava um mês. E com a rotina, alguns decidiram por adotar as novas cores – ou não deram importância ao fato. Outros, incomodados, trataram de buscar com extrema dificuldade, tintas para tentar voltar suas propriedades ao antigo visual.

Os que conseguiram, se arrependeram ao ver que o trabalho árduo apenas os fez destoar do mundo nonsense.

Incomodados ou acomodados, os olhos das pessoas convivem bem com o novo espectro. As agências de turismo ganharam atrativos para os antigos clientes. “Relaxe nas águas douradas do Caribe”, “Conheça as misteriosas pirâmides negras do Egito”. O setor nunca esteve tão aquecido.

Agora, pergunto de todo o coração: se até mesmo as esmeraldas se tornaram castanhas, por que seus olhos continuam tão verdes a me hipnotizar?

Sobre bic azul

Uma caneta pode escrever qualquer coisa, boa ou ruim. Normalmente, ninguém liga muito se ela funciona. Mas, quando ela falha...
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10 respostas para do absurdo.

  1. Thiago Adriano disse:

    Muito Bom. Do @#%%&9(*7 !!!!
    Parabéns !!!

  2. Jéssica disse:

    Parabéns menino Hipolito, muito bom mesmo!

  3. Deise disse:

    Bem legal, eu queria ver esse mundo master colorido!!!

    Parabéns quase-blogueiro!

  4. Rodolfo disse:

    Esse nego viaja em….rsrs!
    mmMMuito bom mano!
    tu tinha que ser redator mesmo viu!
    ^^

  5. Vanessa disse:

    Muiiiiiiiiiiiiiiitoooooooooooooooooooooooooooooo Bommmmmmmmmmmmm … rsrsrsrs

  6. thahy disse:

    que vontade de ter olhos verdes,,,

  7. (marta) disse:

    meudeus. muito lindo.
    me prendeu sem piscar.. lindo demais.
    adorei
    ;*

  8. Walter Cruz disse:

    Absurdo o texto! Desculpe o trocadilho infame, mas eu gostei mesmo!

  9. Marcela Ortolan disse:

    Você é especial. Muito especial.

    Um escritor e tanto.

    Pena que eu não tenho olhos verdes… rs

    Um grande abraço

  10. Dani disse:

    menino Paixão!!!!
    amei seu conto.
    bjinhos

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