tem fogo?

Para quem o conhecia, a pergunta era sempre retórica.

Apesar de ser um fumante habitual, não comungava do pacto secreto das regras não escritas com quem compartilhava seu vício.

Aquele mesmo pacto que antes negava e agora exige o sexo no primeiro encontro, que nos mantém mudos no elevador e que manda todos os motociclistas pararem quando um deles é parte de um acidente.

Zeca sempre negava fogo. E não era na cama. Era no fumo. Seus poucos amigos faziam todo tipo de gozação. Todo duplo sentido já havia sido explorado à exaustão. Como um cara tão normal como Zeca podia ser mesquinho com algo tão banal? Isqueiros, fósforos e até a tradicional brasinha, Zeca, sem explicação, continuava a negar.

Certa noite, num happy hour, um colega que tinha exagerado quase partiu pra cima de Zeca, tamanha sua indignação por obrigá-lo a voltar para dentro do bar para acender o seu cigarro mentolado. Geraldo, amigo de longa data, foi quem acabou salvando Zeca de apanhar. “Calma! Sou padrinho do filho do cara e ele nunca acendeu um cigarro meu!”.

Aliás, era de Geraldo que vinhama maior parte das piadas. “Esse aí compartilha até a mulher, mas não compartilha o fogo!”.

O mistério acabou totalmente sem querer, numa terça-feira das mais comuns e esquecíveis, não fosse aquela pausa das 3 da tarde, quando Zeca e Geraldo saíram de suas mesas no 9º andar e desceram para fumar.

Geraldo bateu nos bolsos e percebeu que tinha esquecido o isqueiro. Expirou com frustração mas nem cogitou pedir o do amigo. Teorizou:

“Já sei qual é a sua. Lá no planeta de onde você veio, compartilhar fogo desvia ser um crime terrível e quando alguém fez isso, milhões morreram. Certo?”.

Dessa vez, Zeca não negou fogo. Sacou de um velho 38 e disparou 4 vezes, à queima roupa.

Lamentou, mas não podia deixar vivo alguém que sabia demais.

Zeca acabou sendo abduzido na fuga. Primeiro, por uma viatura. E, cinco anos depois, por uma espaçonave. Finalmente.

Perguntou ao piloto:
“Por que demorou tanto?”

“Ah, chefia, não é minha culpa. Tiraram muito ônibus espacial dessa linha. Tem que acender um cigarrinho e esperar.”

Zeca sorriu.

Sobre bic azul

Uma caneta pode escrever qualquer coisa, boa ou ruim. Normalmente, ninguém liga muito se ela funciona. Mas, quando ela falha...
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