lá e cá.


Sobre o mar aberto
Sob um céu fechado
O pensamento vaga
Enquanto o corpo se ocupa

Tudo se revela com clareza
Na câmera escura
Feito uma fotografia do futuro
Que se passa como memória

É como reflitir
Ainda que no espelho
É agir sem pensar
Ou assistir acontecer

Querer é tão humano
Buscar é tão automático
Quanto desistir
na menor dificuldade

Tudo isso
Nos aproxima e distancia
Na mais perfeita simetria
Na mais perfeita dictomia

Nada disso
Da poesia ao dia a dia
Há um traço, um ponto
Que vai ou que fica
E qual será?

Todo feito é imediato
Quase sempre fugaz
Todo discurso memorável
é só lembrança e nada mais.

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memórias.


Antes que eu esqueça ainda mais delas, acho que é melhor registrar aqui um pouco do que ainda lembro.

Claro que não estou falando daquela fórmula gasta de dizer o que você mesmo lembra sobre a vida (no caso eu), nem aquelas que você mistura com imaginação para parecerem melhores ou piores do que foram. Nem de falar com a câmera em PB para o Fantástico.

As memórias dos objetos são um pouco menos exploradas mas igualmente gastas, com o diferencial da frieza que lhes é característica.

Algo parecido com o que acontece com a memória dos lugares e dos povos, que acabam sendo para lá de impessoais. E como seria diferente?  

Outras velhas conhecidas são as memórias de personagens. Essas, normalmente, são a melhor parte da história. Os flashbacks de Lost não me deixam mentir.

Bom, então é isso, terminei.

O quê? Está se perguntando sobre o que são as memórias que escrevi, então? Ora, são sobre as memórias que tenho sobre memórias em geral.

Essas, duvido que alguém já fez. Bom… pelo menos não que eu lembre.

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fumaça e espelhos.


mágica
é distrair a atenção 
prática
da imaginação 

(asas de Ícaro) 

a vida é mágica,
dizem 
mesmo que trágica
também  

(asa delta) 

mais um carro parado
em fila no sinal mais alguém
à caminho do hospital 

(asinhas de frango) 

sem mágica
segredo e truque revelam-se
mesmo que machuque

(asas podadas) 

é só fumaça 
dos fogos e tiros 
do escapamento 
do cigarro fedorento 

são só espelhos 
o real, que mente 
para a mente
o virtual, desenvolvido
pra mentir ao desconhecido
e os negros,
de LED e LCD 
desligados sem querer 

(asas de chumbo)   

No prazer,
eu sei
asas de formiga
(que só duram um dia)

No amor,
talvez  
asas de anjos,
(eternas pra quem acredita)

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Charles quebrou o pé.


Charles quebrou o pé e disse que foi no futebol.

Charles quebrou o pé numa terça, que é dia de jogo da segunda divisão e pouca gente deixa de vir jogar para assistir.

Charles quebrou o pé na cobrança de escanteio. Sozinho. Nem foi falta.

Charles quebrou o pé e doeu muito, pois, mesmo engessado, não trabalhou quarta.

Charles quebrou o galho do chefe e disse que vinha amanhã.

Charles quebrou o pé e não podia dirigir. Pegou carona e veio de trem.

Charles quebrou o pau porque ninguém queria lhe dar lugar.

Charles quebrou a cara, porque ninguém deu lugar mesmo assim.

Charles quebrou a esquina, lentamente, com suas muletas.

Charles quebrou as regras e foi embora mais cedo na quinta.

Charles quebrou o pé, mas bateu a meta.

Charles bateu na porta porque esqueceu as chaves.

Charles bateu de novo.

Charles quebrou o pé e ganhou muletas e pode forçar a porta de madeira.

Charles forçou-se a acreditar no que via.

Charles quebrou o pé e descobriu que sua mulher quebrou os votos.

Charles quebrou.

Charles forçou a porta.

Charles forçou a barra.

Charles quebrou a cara dele com a muleta.

Charles quebrou o pé e partiu os ossos em três lugares.

Charles ficou com o coração partido.

Charles quebrou uma página da sua vida antes do fim das linhas.

Charles quebrou todos os dias em sexta, sábado e domingo dali pra frente.

Charles quebrou o pé, mas remendou os cacos.

Charles quebrou o pé e até hoje sabe quando vai mudar o tempo.

Charles quebrou o tempo.

Charles mudou.

Charles quebrou o pé direito, mas ainda chuta muito bem de canhota.

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autua Judas.


Nada tema
Escolha um tema

Escreve,
Escravo
do expressar

que lhe traz
letras
Imagens
a imaginar

Ditongos dizem tangos
Dizem tanto
E oxítonas oxidam
À sua áspera espera

Escreve.
És breve.
Se atreve!

mas sedes breve
Semibreve

Mais sede.

Não se trema.
Não há mais trema.

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alienação 2.0


Informação
Noite e dia
A todo momento

Em vão
É anestesia
do pensamento

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tem fogo?


Para quem o conhecia, a pergunta era sempre retórica.

Apesar de ser um fumante habitual, não comungava do pacto secreto das regras não escritas com quem compartilhava seu vício.

Aquele mesmo pacto que antes negava e agora exige o sexo no primeiro encontro, que nos mantém mudos no elevador e que manda todos os motociclistas pararem quando um deles é parte de um acidente.

Zeca sempre negava fogo. E não era na cama. Era no fumo. Seus poucos amigos faziam todo tipo de gozação. Todo duplo sentido já havia sido explorado à exaustão. Como um cara tão normal como Zeca podia ser mesquinho com algo tão banal? Isqueiros, fósforos e até a tradicional brasinha, Zeca, sem explicação, continuava a negar.

Certa noite, num happy hour, um colega que tinha exagerado quase partiu pra cima de Zeca, tamanha sua indignação por obrigá-lo a voltar para dentro do bar para acender o seu cigarro mentolado. Geraldo, amigo de longa data, foi quem acabou salvando Zeca de apanhar. “Calma! Sou padrinho do filho do cara e ele nunca acendeu um cigarro meu!”.

Aliás, era de Geraldo que vinhama maior parte das piadas. “Esse aí compartilha até a mulher, mas não compartilha o fogo!”.

O mistério acabou totalmente sem querer, numa terça-feira das mais comuns e esquecíveis, não fosse aquela pausa das 3 da tarde, quando Zeca e Geraldo saíram de suas mesas no 9º andar e desceram para fumar.

Geraldo bateu nos bolsos e percebeu que tinha esquecido o isqueiro. Expirou com frustração mas nem cogitou pedir o do amigo. Teorizou:

“Já sei qual é a sua. Lá no planeta de onde você veio, compartilhar fogo desvia ser um crime terrível e quando alguém fez isso, milhões morreram. Certo?”.

Dessa vez, Zeca não negou fogo. Sacou de um velho 38 e disparou 4 vezes, à queima roupa.

Lamentou, mas não podia deixar vivo alguém que sabia demais.

Zeca acabou sendo abduzido na fuga. Primeiro, por uma viatura. E, cinco anos depois, por uma espaçonave. Finalmente.

Perguntou ao piloto:
“Por que demorou tanto?”

“Ah, chefia, não é minha culpa. Tiraram muito ônibus espacial dessa linha. Tem que acender um cigarrinho e esperar.”

Zeca sorriu.

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