Eva.


Você acredita em destino? Acha que cada pessoa, ou melhor, cada ser nasce para cumprir um papel? Que mesmo as mais pequenas ações têm uma finalidade dentro de algo maior? Ou é tudo obra do acaso? Somos sempre nós os autores de cada uma de nossas escolhas?Eu não sei. Acho que não tive tempo suficiente de saber. Talvez nenhum de nós tenha.

Neste momento, sei apenas que sou Eva. E que tenho algo a fazer.

Escolha? Acaso? Destino? Eu não sei dizer. Assim como não saberia dizer como acabei aqui.

Juro que me encantaria por essa paisagem idílica, mas sei que ela não vai durar. Tudo isso é apenas o cenário do ato que protagonizo.

“Éden”, me disseram. “Éden” ?

Ando pela relva verde e seca, entre as mais belas árvores, à procura de uma em especial.

Ela está onde deveria. Eu a encontro sem dificuldade. É perfeita como tudo aqui. Perfeita demais.

Respiro fundo e me aproximo.

Maldição! Eu não deveria estar aqui.

Eu ainda tenho escolha. Não precisa ser assim!

Uma voz surge por trás das folhagens. Ela fala comigo.

Eu não preciso prestar atenção para responder o que sei de cor. Estava escrito.

O que eu preciso é pensar. Posso fazer diferente!

Posso, mas ouço…

Filosofia barata: bem e mal, homens, mulheres e deuses, a brevidade da vida, a carne, os desejos…

Desejos…

Ele consegue minha atenção.

Como poderia ser diferente? Estou certa de que será assim até o fim dos tempos: o que moverá os humanos é o desejo. Especialmente, nós, mulheres.

Somos criaturas do momento. Assim como o desejo, o prazer e a paz.

(…)

Como se materializa um desejo?

Não por muito tempo, é claro.

Uma maçã. Que chavão…

Vermelho é a cor da fruta e ela é tentadora.

Pego, sinto. É firme.

Mordo com vontade. Gostosa, suculenta.

Uma gota generosa de seu sumo doce acaba escorrendo dos meus lábios pelo queixo e chega ao pescoço causando um arrepio que me faz fechar os olhos.

Então me vejo. O que estou fazendo? Não..! Eu estou seguindo o script!

Abro os olhos, confusa, mas ciente de que ainda posso desistir. Sigo meu instinto de fugir.

Recuo e sinto o meu corpo se chocar contra o dele.

De onde ele veio?!

Droga! Eu sabia o tempo todo que ele estava ali.

Mas a surpresa me faz deixar a maça cair de minha mão. Ele a toma em pleno ar e a abocanha vorazmente, fixando seus olhos aos meus.

É o momento.

É o desejo.

Antes que eu possa esboçar qualquer reação, ele me beija longamente e eu correspondo.

Suas mãos tocam meu corpo sem nenhum pudor. Experimenta texturas, intensidades, regiões e fluídos.

Os corpos que ainda há pouco eram desconhecidos agora se entrelaçam e se exploram de todas as formas.

Eu me exibo. Ele gosta. Me posiciona, direciona e eu me deixo conduzir.

Não há limites. Só há momentos.

E no momento em que me entrego é que o sinto por completo.

Só o que importa agora é sentir estes movimentos. Só o que importa agora é aproveitar este momento.

O prazer absoluto. E fugaz.

Desfalecemos juntos na relva. Saciados, exaustos.

Nos olhamos por algum tempo e eu experimento a brevidade da paz, outra criatura do momento.

Eu quase adormeço, mas um grito amplificado me põe em alerta.

Não… não é uma condenação. Fizemos exatamente o que ele queria. O grito é apenas imperativo. “Corta!”, ele diz.

“Corta!”, e eu não sou mais Eva. Mas meu nome não tem nenhuma importância.

Sinto seu corpo se mover sobre o meu e gentilmente me afasto, depois me levanto.

A assistente traz algo para que eu possa me cobrir. Que diferença faz? O que todos nesta sala ainda não viram?

O diretor fala sem parar. Não ligo para elogios rasgados. Não acredito neles. Se acreditasse, não ligaria também.

O que me importa se a serpente será feita em computação gráfica ao invés de um boneco de pano? Foda-se se a foto da cena estará estampada na capa do filme.

“Éden”, me disseram. “Éden”!

Quando dou uma pausa na minha seção de autopiedade, ele já está a caminho do chuveiro quando é questionado sobre a “atuação da estreante”.

“Inspirada…”, ele diz meio sem-graça.

Pela primeira vez, desde que o fim da cena, eu sorrio.

Destino? Acaso? Escolha? Eu não sei.

Mas acho que um deles trouxe algo de bom pra esta criatura do momento.

Melhor tomar um banho.

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fim da odisséia.


Eu queria fazer um poema homérico
Que contasse histórias forjadas em fogo hadeano
Que descrevesse seres mitológicos
Com uma narrativa titânica

Eu quis fazer um conto sobre amor platônico
Mas me perdi em pensamentos afrodisíacos
Envolvendo algumas ninfetas

Eu quis criar uma retórica aristotélica
Fantasiando um conto dionisíaco
Ou dissertando num raciocínio apolíneo

Eu queria fazer um poema homérico
Que tarefa mais hercúlea!
Tentei compor versos líricos
Mas as palavras me foram levadas por força eólica.

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