vai luzir.


Um minuto e nada mais:
Uma palavra sagaz?
Um desejo audaz?
Um gesto incomum?

Um instante atrás
Poderia ser mais
Completo e capaz,
Como outro nenhum

(…)

Mas algo mudou
O instante passou
Uma luz se apagou
Se tornou só mais um

Vislumbrar o futuro
É muito inseguro
(o passado é obscuro!)
Luz em três, dois, um.

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8 anos.


Felipe sabe que não devia estar desobedecendo ao seu pai. Ele mesmo sente os como se seus olhos queimassem enquanto olha para luz flamejante da solda, mas está encantado com aquilo. Ele não sabe para que serve. Seu pai explicou que era algo como “uma cola para ferro”. Como assim?

Mas agora ele não via nada além do brilho e não poderia ouvir nada além do som elétrico e assustador.

Pensava no quanto a máscara que seu pai usava o fazia parecer um super-herói quando foi notado.

Seu pai parou de soldar e ele quis correr, mas agora não conseguia enxergar nada além de uma mancha branca. Ficou desorientado e tropeçou sozinho dando, caindo com o rosto virado para a areia quente do meio-dia. Chorou.

Seu pai desceu poucos degraus e atirou o equipamento ao chão para socorrer seu único filho. Limpando a terra de seu rosto e dos seus cabelos, ele o colocou em seu colo.

_ Por que você faz isso? – disse ele, franzindo a testa. – Eu sei que você tem olhos atentos, mas precisa me obedecer. Preciso dos seus olhos atentos, e não queimados.

Seu choro, que era mais pelo susto do que pela dor, foi desaparecendo, mas suas lágrimas não. Estas agora eram de tristeza: ele o tinha decepcionado.

Então seu pai secou seu rosto com a manga da camisa e sorriu, mas Felipe não viu o sorriso. Ainda estava com a cabeça abaixada, contraindo seus lábios entristecidos.

Só quando o seu nariz começou a escorrer e seu pai limpou com mesma manga da camisa, Felipe levantou a cabeça e voltou a ter a certeza que ele o amava.

_ Vá brincar lá dentro. Eu ainda tenho muito trabalho pra fazer aqui.

_ Eu arrumo as coisas pra a gente ir.

_ Não. Não hoje. Não dessa vez. Agora vá.

Felipe não entendeu, mas se foi, cauteloso, já que sua visão ainda não estava plenamente restabelecida.

(…)

Quase como que por encanto, às seis da tarde o céu escureceu rapidamente. Felipe não estava acostumado com isso. Ficou muito apreensivo e amedrontado. Queria sair de lá. Para qualquer lugar que fosse.

Então seu pai entrou no abrigo. Os últimos raios solares desenharam sua silhueta. Felipe o via forte e confiante, mas também exausto. O fato é que seu rosto inseguro era acolhido pelas sombras e Felipe via naquela forma, apenas aquilo que imaginava.

Ele pendurou mais um gancho na bateria fazendo a luz se acender. Felipe não tinha mais medo.

Seu pai então se sentou na bancada, ao lado do rádio desmontado, e disse:

_ Vamos dormir aqui esta noite.

Passaram as grossas correntes pelas fendas nos portões e trancaram-se.

_ Temos de economizar. – disse o Pai de Felipe enquanto apagava a luz.

Não demorou para que ouvissem uivos que não eram do vento. Primeiro distantes e depois mais perto. Felipe apenas fechou os olhos e recostou-se sobre o peito do pai, que lhe tampou o ouvido.

Felipe respirou mais fundo e pegou no sono, em paz.

Os uivos ficaram mais intensos, mas o pai de Felipe não se abalou. Nem mesmo com o som ressonante do ferro, após o primeiro e forte impacto. Adormeceu acariciando os cabelos do filho:

“Vai demorar, mas se eles vão desistir.” – pensou e então olhou para o Felipe uma última vez e concluiu – “Mas enquanto ele estiver aqui, eu não vou desistir.”

(…)

Na manhã seguinte, Felipe acordou seu pai contando que havia sonhado com a mulher mais linda que já viu. Enquanto seu filho contava, ele finalmente sentiu-se aliviado da culpa de não ter nenhuma foto da mãe do garoto e sorriu.

S0BR3V1V3NT3.


Baterias vazias
Braços retráteis retraídos
Um led vermelho lentamente se apaga
Capacitores perdem sua carga

E ele permaneceria assim para sempre
Se não tivesse chegado onde estava

É terça de manhã
Ele não sabe a diferença das horas
Ele apenas se apaga
Não há ninguém para religá-lo agora

(…)

Não se sabe se ele previa
A corrosão que os anos trariam

Um sensor captara a poça de teor alcalino
Uma esperança vinda dos céus, o movera até ali.

Um raio rasgou os céus
Num dia de uma semana qualquer
E ninguém viu quando, em meio à fumaça escura
Algo se moveu

É possível que não conhecesse a solidão
É provável que fosse incapaz de criar

E mesmo que não estivesse em sua programação
É certo que, de alguma forma muito particular,
Sabia o que era a vida.

álibi.


O álibi perfeito
O crime do tempo
Mais que imperfeito

A hora H
Um segundo qualquer
O ponteiro de todas as letras

A vida mansa
Os cães raivosos
A morte dança
Te olhando nos olhos

Uma voz
Um eco
Cada um de nós
Cada um de nós

Perdeu algum coisa
No fundo do copo
Procurou alguém
No espelho

O inverso,
Nem sempre ilusão
O universo,
Em constante expansão

Cada um de nós
Cada um de nós.

ali terá ação.


Em verdes vales vivem
Vagabundos vindos de Veneza
(em Veneza não há verdes vales)

Veio voando, vão
Feito um véu ao vento
Um vagalume veloz

Voluntariamente, velei
Vislumbres vivazes
De vagas viagens

Nas vilas vizinhas
Vultos e vaias
O vírus

E você,
A vacina.

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