já percebeu?


A gente anda tão distraído
Que não lembra mais
Onde estacionou
Onde tudo começou

Como se machucou

E nem sabe como fez
esse roxo aí braço
E que aquela despedida
não teve nenhum abraço

Tão distraído que não vi você aí
Na festa
No face
Na faixa
de pedestres

Onde eu coloquei aquele papel?
Onde eu salvei aquele arquivo?
Onde eu deixei aquele
amigo?

Trabalho duro ou coração duro?
Rotina tensa ou vida intensa?
Preguiça ou… sei lá, outra coisa.

Tudo, nada.

Mas também tem eles
Entorpecentes
Químicos ou eletrônicos
Pra tirar a gente da realidade
Da consciência
Da convivência

Da dor

Do amor.

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tempos modernos.


_ Sabe… – disse Carlos, que tinha uma irritante mania de ser reticente – os celulares… deviam ter, tipo… um aviso nas caixas…

_ Como aqueles fetos mortos dos cigarros? – questionou Pedro, já meio distantes desde o “Sabe…” – ouvi dizer que dá câncer.

_ Não… é… Isso também… – Carlos tomou uma difícil decisão: voltar ao assunto inicial antes que se esquecesse completamente dele – quero dizer… algo mais como aquelas… aquelas telas azuis de propaganda de remédio… ”Se persistirem os sintomas…”

_ É “A persistirem” – Pedro retificou de imediato, mesmo sem ter certeza.

_ É… foda-se. Algo assim.

_ Hmmm – desinteressou-se Pedro.

_ … – irritava Carlos.

_ Dizendo o que? – perguntou Pedro com a leveza suavemente aborrecida dos ausentes. Na verdade, ele percebera que não tinha muito mais o que fazer, além de ter aquela conversa.

_ É… ”Felicidade não incluída”. – concluiu Carlos, com um meio sorriso e um longo suspiro.

_ Com hífen?

_ …. acho que sim.

_ Porque tem essa reforma aí. – disse o distante e perspicaz Pedro.

_ É… é foda.

_ Por que, hein?

_ Ah… Junta um bando de… professores ou algo assim… e falam: “Queremos vendar mais dicionários”, aí…

_ Não, to falando do…. – Pedro não era reticente. É que Carlos não parou de falar.

_ Deve ser tudo culpa da Internet e…

_ Celular. – Pedro concluir a sua frase, não a de Carlos.

_ Isso! … e do celular. – disse Carlos, que se animou mesmo assim.

O silêncio pairou e viu que não tinha nenhum motivo especial. Foi embora.
_ Um aviso na caixa? – não que Pedro estivesse mais atento. Na verdade, a palavra “Celular” ecoou, vagando pela sua mente à procura de algo para se associar. Deu nisso.

_ É… eu acho que tinha que ter…

_ Tinha sim. Que aviso?

_ “Felicidade… não incluída”.

_ Tipo os brinquedos que vinha sem pilhas? Eu ficava mordido com aquilo. – disse Pedro.

_ Ah… Eu também, cara… eu também… – concordou Carlos.

_ Todo mundo! – globalizou Pedro.

_ E o celular… é assim: mil funções… – suspirou o irritante Carlos.

_ O Steve Jobs não para. – Pedro continuava a soltar a primeira coisa que lhe vinha à mente, sem prestar a mínima atenção.

_ … e nenhuma… te abraça. – desabafou Carlos.

_ Acho que por serem pequenos, né?

_ Não é isso…

_ Soube que os japoneses fizeram um aplicativo de iPhone que simula o uma pegada nos peitinhos. – lembrou Pedro.

_ Não é nada disso. Eu não sou idiota. Mas, digo… – Carlos falou sério.

_ Não é idiota. – disse Pedro, convicto.

_ Mas… Pra que serve se…. ninguém te liga? – Carlos encheu os olhos de lágrimas.

_ A tarifa é alta. – disse o óbvio e distraído Pedro.

_ A Juli… ela… ela… me traiu, Pedro. – soluçou Carlos. Cinco vezes.

_ Se vocês tiverem a mesma operadora, vão economizar.

_ Digo… sei que… eu errei com ela.

_ Errar é humano. Perdoar é divino.

_ Mas eu sou… humano – secou as lágrimas – e não vou perdoá-la!

_ Somos o que somos.

_ Foi ela… que quis passar o Ano Novo com os pais dela lá na praia…

_ Ah, o verão.

_ Eu não podia… era meu plantão, poxa.

_ Obrigações primeiro.

_ Aí mandei uma mensagem… “feliz ano novo, amor”. É… o que eu queria dizer…

_ Ah, o amor.

_ Ela leu… e passou a noite toda…. beijando aqueles….. aqueles saradões lá da praia.

_ Traição pérfida!

_ … ei… isso… não é um… pleonasmo?

Agora uma pausa para nosso momento científico:

É comum que duas pessoas percam o fio da meada ao conversar. Especialmente sob o efeito de alucinógenos proibidos no Brasil.

Mas não era este o caso. Em seu estado normal, a mente humana tende a se questionar, às vezes. É uma manifestação, muitas vezes não verbal, que pode ser definida como o fenômeno do “que porra é essa?”.

O fato é que a pergunta de Carlos trouxe Pedro de volta de onde quer que ele estivesse até a pouco, com uma delicadeza digna de um mamute.

Voltemos à nossa animada(!) conversa.

_ Você ta me dizendo que a Ju fez isso contigo porque você passou uma mensagem de “Feliz Ano Novo”?

_ É… – envergonhou-se Carlos – Mas é que tinha um paciente esperando então… acabei não lendo antes de enviar.

_ E daí?

_ Eu tava usando aquele…. T9, sabe?

_ Não. O que tem?

_ Você… nunca usou? Facilita na hora de escrever e…

_ Não sei. Não tenho celular. – disse Pedro, com toda naturalidade.

_ Mas… Não tem?

_ O que você escreveu pra minha irmã, cara?  – Pedro quase se alterou.

_ “feliz com novo amor”.

_ Sem vírgula.

_ É… sem vírgula.

_ Por causa do celular?

_ Isso…

_ Hahahahahahahaha!

_ São as mesmas teclas…

_ Hahahahahahahaha!

_ É sério, porra…

_ Aiai… E por que você não desfaz logo esse mal entendido? – Pedro limpou outro tipo de lágrimas.

_ Ela beijou doze caras!

_ Ao mesmo tempo? – Pedro é fã do Kevin Smith.

_ Escuta… porque você não tem celular?

_ Não sei. Não gosto, eu acho.

_ Mas assim ninguém vai te achar…

_ Você me achou, não foi?

_ É…

_ E eu vim pra chácara.

_ Eu… eu sou um idiota, Pedro… – lamentou Carlos.

_ Não é idiota. – repetiu Pedro, convicto.

_ … – Carlos sorriu em silêncio.

_ A Juli vai rir muito dessa história. Ela te ama. Sabe Deus o porquê, mas ela te ama. – disse Pedro dando um “tapinha” mais forte que o necessário em Carlos.

_ Mas… doze?

_ Quem te disse isso?

_ Sua prima me ligou ontem.

_ É só papo de prima. Vou lá pra dentro. Os pernilongos estão me roendo.

_ Já vou… – Carlos pensou sozinho olhando para o reflexo das estrelas na água, ou através dela, perdido em seus pensamentos.

_ No máximo nove. – Pedro resmungou no caminho para a casa.

_ O QUÊ? – gritou Carlos.

_ NOVELA DAS NOVE! – respondeu Pedro.

[Epílogos são só pra quem gosta mesmo de ler. Continue, se quiser.]

Carlos lembrou de “Titanic”, o primeiro filme que assistiram juntos. Não parece  grande coisa, mas era uma boa lembrança.

Ele jogou o celular na água e ficou feliz. Mas se arrependeu em seguida, porque podia tê-lo vendido no Mercado Livre. Mas teria que conviver com isso.

Quis logo ligar pra Juli e meteu a mão no bolso vazio. Lembrou que Pedro não tinha celular nem telefone na chácara e saltou num mergulho perfeito no lago que tinha a profundidade impressionante de meio metro.

Pedro ouviu o barulho e saiu de casa gritando algo sobre baterias alcalinas envenenando a natureza. Achariam o aparelho no dia seguinte com lama até os chips.

Carlos foi correndo e pingando pra vendinha mais próxima e comprou todos os seis cartões que havia lá. Ela riu e chorou por umas duas horas.

Resolveram morar juntos e passam bem, obrigado. Pedro secou o celular ao sol e ele funcionou direitinho. O dono da vendinha o arrematou pelo preço da compra do mês.

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