preguiça.


_ Oi!
_ .. hum…
_ Houston? Pode me ouvir?
_ E-eu… posso…
_ Então por que você não abre os olhos?
_ Porque eu quero dormiiiiiiiir….
_ Chega de dormir. Ficou até tarde vendo filme porque quis.
_ Pô, tava passando O Talentoso Ripley…
_ (pela enésima vez…)
_ .. e agora eu tô R.I.P.
_ Qual dos filmes? O do Malkovich?
_ Eu sei que tinha o Matt Damon…
_ Conseguiu ver o final dessa vez?
_ Parei naquela cena do piano.
_ Como “cena do piano”?
_ Ah… ele toca um piano e depois sai.
_ Isso é o começo do filme! Os letreiros iniciais nem tinham acabado!
_ É?
_ É, e se você não levantar, eu abro a porta e o Théo vai vir lamber sua boca.
_ Faz isso não…
_ Me dêêêêê motivos…
_ Tira o Tim Maia da nossa cama já!
_ Ué, vai dizer que você não gosta?
_ Não é que eu comprei nas Casas Bahia. Não vai agüentar.
_ Vai acooooorda… Isso vai piorar muito antes de melhorar.
_ É possível?
_ Claro que é… quando o Théo entrar por aquela porta com o rabo em pé…
_ Nãããããããooo…
_ Você vai conhecer o delicioso sabor de Whiskas.
_ Tudo menos isso!
_ Só uma lambidinha…
_ Pôxa, amor… eu tinha umas idéias bem mais interessantes sobre “lambidinhas pela manhã”. Se tivesse me acordado do jeito certo, eu já tava de pé.
_ Ah, é?
_ Aham…
_ Sabe que eu também tive essa idéia?
_ É?
_ Mas alguém aqui desmaiou quando viu o Matt Damon.
_ E o que tem a ver?
_ Desmaiou de calça jeans!
_ (saco…)
_ Se enfiar a cara no travesseiro leva tapa na bunda.
_ Hoje você tá muito cruel.
_ Você não viu nada.
_ Vamos combinar então: conta 5 minutos no relógio e vem de novo, que tal?
_ Não. Hoje é um dia muito importante. Meus pais vão vir aqui e…
_ Viu? Nem é culpa minha. Por mim a gente contava.
_ Já falamos sobre isso.
_ Eu sei… Mas é que eu tô num soninho tão gostoso…
_ Não faz essa carinha…
_ Por favor, por favor…
_ Tá bom, vai. Só mais 5 minutinhos.

(…)

_ Hello… Hello … Hello
_ (suspiro) …
_ Is there anybody in there? … there … there …
_ Tem sim e, definitivamente, comfortably numb…
_ Eu cumpri minha parte, agora é a sua vez.
_ I sayd no, no, no.
_ Agora chega. Você tá passando dos limites!
_ Por causa da preguiça ou pela Amy Winehouse?
_ Ambos!
_ Ah, mas eu tenho um bom motivo…
_ Matt Damon?
_ Não. A calça jeans. Tá ali no chão.
_ Hmmm…. safadinha…
_ Vem cá… vem me acordar do jeito certo…
_ Não fal assim que eu não resisto.
_ Nem tenta…

(…)

_ Hmmm….
_ Mmmm…oh
_ Mmmm… miau?
_ mmmm.. o quê?
_ Eu ouvi um miau. Não foi você?
_ Ih… esqueci a porta aberta.
_ Ah… Théo! Lá vem o homem da casa!
_ Tinha que ser!
_ Sai, gato enxerido! Ménage à trois só quando eu escolher um homem beeeem gostoso.
_ Lá vem você e suas idéias…
_ Não seja preconceituosa.

Anúncios

vingança.


No início da noite de uma quinta-feira, Paulo e Rodrigo estavam sentados à mesa do boteco de costume, brindando cerveja em copos embaçados:

_ Saúde!

_ Saúde!

_ Hmm.. puta calor, hein?!

_ É foda. Meu chefe mete a porra do ar condicionado no talo.

_ Putz!

_ A galera me vê andando pro banheiro sem dobrar os joelhos e pergunta: “Que quié isso?”, aí eu falo: “A Marcha dos Pingüins”!

_ Hahahaha. Boa.

_ Hehe.

_ Mas diz aí, Digão: o melhor é a mulherada.

_ Pode crer. Tudo tem uma compensação…

_ Todas peladas, velho!

_ Uma melhor que a outra.

_ E acham ruim quando a gente olha!

_ Acham nada!

_ É…bom…

_ Tsc. Sei não. O Mauro quase se ferrou numa dessas.

_ Também, o bicho fica maluco, porra. Parece que nunca viu boceta!

_ Pior que a mulher dele é uma gracinha, meu…

_ Nem fala…

_ Falando nisso, cadê aquele veado que não chega?

_ Porra, velho… acho que ele não vem, não.

_ Ué? Ele não falou nada…

_ Aqui pra nós: o cara tá passando por uma barra, meu.

_ É mesmo, cara? E você sabe o que tá rolando?

_ Ele e a Fabi tão se separando…

_ Caraaaalho, velho! Que mau, hein!?

_ Nem fala, meu.

_ Mas o que foi que aconteceu?

_ Briga. Parece que começou por causa de uma festa aí…

_ Festa?

_ É! Chamaram eles pra uma festa e o Mauro ficou a fim de ir. Sair da rotina, tá ligado?

_ Lógico. E aí?

_ Aí que a Fabi não queria. Fechou a cara e ficou putaça com ele.

_ Puta merda… ciúme?

_ Que nada! Vingança mesmo. Mulher é cheia dessas: se faz de vítima pra se vingar da diversão do cara.

_ Como assim?

_ Eu acho que ela não tava nem aí se ele ia ou não: só queria se vingar.

_ Hum?

_ Aquele velho esquema: ela fica esperando ele se humilhar dizendo que não vai. Aí ela solta um “pode ir”, se sente dona da situação e pronto.

_ Hahaha. Mulher é foda. E aí?

_ Aí que o Mauro falou que não ia.

_ Ih… dominado.

_ Saca só: ela falou pra ele ir e ele falou que não queria mais ir.

_ Dominado TOTAL!

_ Cê que pensa! Foi na mesma moeda, cara: VINGANÇA! O bichão conhecia o joguinho e botou nela a culpa dele não ir.

_ Hahahaha! BOA!

_ É, boa, mas foi aí é que deu-se a merda: ela já tinha plano pra quando ele saísse e ficou irritada pra caramba. Os dois começaram a discutir…

_ Ih, carai…

_ Rolou gritaria, ressuscitaram umas brigas, quebraram uns bibelôs… Um inferno.

_ Puta merda!

_ Aí, deu no que deu…

_ Que foda, hein!?

_ Foda…

_ E como ele tava quando tu falou com ele?

_ Eu? Falei nada com ele não.

_ Vixi… foi a Fabi que te contou, então?

_ Nem. Não vejo mais aquela mina.

_ Porra… então como é que tu sabe de tudo isso?

_ Eu tava lá, caralho…

_ Como é que é, Paulão?

_ Tava dentro do armário!

_ !!!

_ Porra… vingança, né, meu?! Sabe aquela dívida que o filho da puta do Mauro arrumou no bingo? Emprestei 8 paus pra ele e até hoje aquele cuzão não me pagou. Quatro anos, já!

_ … cara… cê é louco…

_ … agora que eu tô pensando… E se ele resolve sair, hein? Ele abria o guarda-roupa e eu tava FO-DI-DO, né não? Aquele porra só anda armado… Chama mais uma aí.

Eva.


Você acredita em destino? Acha que cada pessoa, ou melhor, cada ser nasce para cumprir um papel? Que mesmo as mais pequenas ações têm uma finalidade dentro de algo maior? Ou é tudo obra do acaso? Somos sempre nós os autores de cada uma de nossas escolhas?Eu não sei. Acho que não tive tempo suficiente de saber. Talvez nenhum de nós tenha.

Neste momento, sei apenas que sou Eva. E que tenho algo a fazer.

Escolha? Acaso? Destino? Eu não sei dizer. Assim como não saberia dizer como acabei aqui.

Juro que me encantaria por essa paisagem idílica, mas sei que ela não vai durar. Tudo isso é apenas o cenário do ato que protagonizo.

“Éden”, me disseram. “Éden” ?

Ando pela relva verde e seca, entre as mais belas árvores, à procura de uma em especial.

Ela está onde deveria. Eu a encontro sem dificuldade. É perfeita como tudo aqui. Perfeita demais.

Respiro fundo e me aproximo.

Maldição! Eu não deveria estar aqui.

Eu ainda tenho escolha. Não precisa ser assim!

Uma voz surge por trás das folhagens. Ela fala comigo.

Eu não preciso prestar atenção para responder o que sei de cor. Estava escrito.

O que eu preciso é pensar. Posso fazer diferente!

Posso, mas ouço…

Filosofia barata: bem e mal, homens, mulheres e deuses, a brevidade da vida, a carne, os desejos…

Desejos…

Ele consegue minha atenção.

Como poderia ser diferente? Estou certa de que será assim até o fim dos tempos: o que moverá os humanos é o desejo. Especialmente, nós, mulheres.

Somos criaturas do momento. Assim como o desejo, o prazer e a paz.

(…)

Como se materializa um desejo?

Não por muito tempo, é claro.

Uma maçã. Que chavão…

Vermelho é a cor da fruta e ela é tentadora.

Pego, sinto. É firme.

Mordo com vontade. Gostosa, suculenta.

Uma gota generosa de seu sumo doce acaba escorrendo dos meus lábios pelo queixo e chega ao pescoço causando um arrepio que me faz fechar os olhos.

Então me vejo. O que estou fazendo? Não..! Eu estou seguindo o script!

Abro os olhos, confusa, mas ciente de que ainda posso desistir. Sigo meu instinto de fugir.

Recuo e sinto o meu corpo se chocar contra o dele.

De onde ele veio?!

Droga! Eu sabia o tempo todo que ele estava ali.

Mas a surpresa me faz deixar a maça cair de minha mão. Ele a toma em pleno ar e a abocanha vorazmente, fixando seus olhos aos meus.

É o momento.

É o desejo.

Antes que eu possa esboçar qualquer reação, ele me beija longamente e eu correspondo.

Suas mãos tocam meu corpo sem nenhum pudor. Experimenta texturas, intensidades, regiões e fluídos.

Os corpos que ainda há pouco eram desconhecidos agora se entrelaçam e se exploram de todas as formas.

Eu me exibo. Ele gosta. Me posiciona, direciona e eu me deixo conduzir.

Não há limites. Só há momentos.

E no momento em que me entrego é que o sinto por completo.

Só o que importa agora é sentir estes movimentos. Só o que importa agora é aproveitar este momento.

O prazer absoluto. E fugaz.

Desfalecemos juntos na relva. Saciados, exaustos.

Nos olhamos por algum tempo e eu experimento a brevidade da paz, outra criatura do momento.

Eu quase adormeço, mas um grito amplificado me põe em alerta.

Não… não é uma condenação. Fizemos exatamente o que ele queria. O grito é apenas imperativo. “Corta!”, ele diz.

“Corta!”, e eu não sou mais Eva. Mas meu nome não tem nenhuma importância.

Sinto seu corpo se mover sobre o meu e gentilmente me afasto, depois me levanto.

A assistente traz algo para que eu possa me cobrir. Que diferença faz? O que todos nesta sala ainda não viram?

O diretor fala sem parar. Não ligo para elogios rasgados. Não acredito neles. Se acreditasse, não ligaria também.

O que me importa se a serpente será feita em computação gráfica ao invés de um boneco de pano? Foda-se se a foto da cena estará estampada na capa do filme.

“Éden”, me disseram. “Éden”!

Quando dou uma pausa na minha seção de autopiedade, ele já está a caminho do chuveiro quando é questionado sobre a “atuação da estreante”.

“Inspirada…”, ele diz meio sem-graça.

Pela primeira vez, desde que o fim da cena, eu sorrio.

Destino? Acaso? Escolha? Eu não sei.

Mas acho que um deles trouxe algo de bom pra esta criatura do momento.

Melhor tomar um banho.

a despedida.


Já era quase meia noite. Como sempre, ele estacionou a poucos metros da casa dela, mas dessa vez não desligou o carro e ficou a observando calado alguns instantes, esperando que ela quebrasse o silêncio:
_ Adorei a noite.
_ Eu também.
_ O jantar estava excelente!
_ Que bom que você gostou.
_ Você sabe mesmo como escolher um vinho.
_ Só não sei parar de bebê-lo…
_ Hahaha! Seu bobo! Eu te amo, sabia?
_ Eu também te amo, linda.
_ Adoro quando você mente pra mim.
_ Eu sei, hahaha.
Deram um beijo longo. As mãos dele tentavam percorrer o corpo dela, que então, o abraçou.
As carícias ficaram mais intensas e então soltaram um do outro como num susto.
_ Melhor parar… melhor parar…
_ … também acho.
_ Ou não? – ela sorriu convidativa.
_ Estamos no meio da rua…
_ Isso é verdade.
_ Eu te ligo amanhã.
_ E se…
_ Se?
_ Você subisse só um pouquinho… eu tenho um vinho excelente aí.
_ Já chega de vinho para mim hoje.
_ A gente pode ficar mais a vontade…
_ Acho melhor não… hoje é segunda.
_ Desde quando você liga pra isso?
_ Desde que inventaram as malditas videoconferências com a matriz lá do Rio. Eles sabem que hora eu cheguei e ainda conseguem ver minhas olheiras.
_ Maldita tecnologia!
_ Maldita…
_ Tem certeza?
Ele ergueu os ombros e cerrou os lábios.
_ Então está na hora do senhor ir dormir. Nada de ficar ensaiando trechos do relatório até tarde da noite, viu?
_ Não prometo nada…
_ Eu sei…
Beijaram-se novamente. Dessa vez com uma volúpia aflita dos que sabem que conterão seus desejos. Lentamente, ela deixava escapar o lábio inferior dele que estava entre os seus, virando-se um pouco:
_ Não me provoca…
Ele interrompeu o beijo pouco depois e respirou fundo enquanto a olhava em silêncio.
_ Eu detesto quando você me obedece.
_ Eu sei…
_ … se cuida.
_ Você também.
_ Me liga amanhã?
_ Claro.
_ Então, tchau, amor.
_ Tchau, amor.
Fechou a porta na segunda tentativa e ergueu a mão ao se despedir dele, que sinalizou de volta sorrindo.
Ela adentrou pelo portão de ferro, depois pela porta de vidro que dava para o saguão principal e subiu pelo elevador até o 9º andar acompanhada das incertezas e expectativas que seguem os amantes.
Ele engatou a primeira marcha e parou no primeiro semáforo, depois de duas quadras, sempre atento a rua já sem movimento. Pegou o celular do porta-luvas e acionou a rediscagem automática.
_ Oi, amor. Tudo bem… Olha, já estou chegando, tá? … Preparou, é? Hm, que delícia… Me espera, então… vou te amar como nunca…. outro. Tchau.
Fechou o telefone e expirou, aliviado:
_ Putz… Ainda bem que deu tudo certo. Se minha amante desconfia que eu dispensei ela pra transar com a minha esposa, eu tava fodido…

quando.


quando nos olhamos
senti que havia algo especial
que só se descreve como indescritível
No mais belo e perfeito dos paradoxos

quando nós olhamos
o que era diferente ou igual
as voltas da vida nos torceu, terrível
como nas barbas dos judeus ortoxodos

quando nus, olhamos
sentimos o que nos era essencial
o resto mundo ficou intangível
no momento em que ficamos próximos.

Blog no WordPress.com.

Acima ↑