irresistível.


Bateu 3 vezes na porta e entrou, sem querer saber se era esperado. Já era tarde.

Ela estava só. Deitada nua na cama. Dormia e parecia sonhar.

Sorriu quando viu a bailarina de porcelana presa a caixinha de música. A bolsa tinha sido deixada em qualquer lugar e a alça cobriu os olhos da eterna dançarina, com se alguém a tivesse vendado para censurá-la do que aconteceria ali.

No outro móvel, estava a aparente razão da sonolência. Uma garrafa pela metade abandonada sem rolha. Para ela, talvez a espera fosse metade do prazer. Talvez.

Ele colocou seus objetos pessoais ao lado e viu uma taça reservada para si. Não precisou de muito esforço para resistir, pois desejava sabores e notas que aprecia quentes, e não num balde de gelo.

Mas nem por isso investiu rapidamente contra aquele corpo nu de pele macia, como todos os seus instintos clamavam.

Era um amante que sabia esperar. Que soube aguardar sua chance de se aproximar. De ter seu olhar retribuído e de deixar a intimidade acontecer. De esperar que o palpitar intenso dos corações entrasse em sintonia.

A porta aberta e o corpo vulnerável era  onde estavam agora. Inspirava, afinal, alguma confiança que tornava o desejo mais disponível.

Primeiro, deleitou-se com o visual dela na cama. A pele contrastando com o lençol, que se ondulava e se estendia conforme as pequenas partes do corpo que ficou encarregado de cobrir.

Com as costas da mão, sentiu a temperatura antes de tocá-la. Era quente e suave.

Foi então a vez dos dedos sentirem os cachos espalhados pelo travesseiro e a maciez das maçãs do rosto, provocando um preguiçoso sorriso ao reconhecer o toque.

Quando sua mão percorreu toda a extensão do corpo, ela suspirou. Aproximou os lábios e respirou perto do pescoço dela.

Beijou primeiro de forma doce e depois mais intenso. Gostou. Subiu em busca da orelha pronto para colocar também dentes e língua para participarem.

Ela abriu os olhos e sorriu inclinando a cabeça para o lado.

“Porque você chegou tão tarde? Eu fiquei com soninho…”, fechou novamente os olhos tomada por um sono irresistível.

Ele riu para si mesmo.

É, talvez fosse um amante que espera demais.

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de passagem.


Essa noite, sonhei acordado.
Eu podia viajar no tempo.
E eu, tolo, fui ao passado.

Imaginei que podia estar lá, do mesmo jeito que me lembro do que aconteceu.
Como cada palavra daquele diálogo ainda estava na minha cabeça.
E como eu pude errar tanto sem saber que errava.

Como eu quis voltar e dizer a coisa certa!
E logo estava ali, depois, aproveitando os louros disso.

Então percebi que não podia viver mais aqueles momentos com a riqueza de antes porque tinha saído da máquina do tempo chamada memória. Agora, vagava no túnel onírico e traiçoeiro da imaginação.

Busquei fatos. Fotos. Forças.

Tudo que pudesse alimentar o insaciável apetite do “e se…”.

Em vão.

Passou.

A luz no fim do túnel era branca. Intensa.

Era uma lâmpada de led rosqueada no lustre. Desembarquei na estação realidade, recebido por uma pulsação forte, uma cadeira dura e um clima bem frio.

Respiro.

Escrevo.

Ainda é tarde e tenho medo de ir dormir, porque nos sonhos do sono, não há limites entre túneis e estações.

Nem trilhos para saber aonde vou chegar.

Estranhamente, anseio pela viagem ao mesmo tempo em que temo nem sair do lugar.

ou.


Esse ou aquele
Assim ou assado
Esquerda ou direita
De longe ou ao lado?

Decida-se
De si
sempre seja

Morde ou assopra
Cospe ou engole
Ser ou não ser
Duro ou mole?

Escolha
E colha
o que plantou

Entre lá e acolá
Sempre há o aqui
Mas é bobagem ficar
Se você quer seguir

Ama, desapega. Enfrenta, se entrega.
Caga, sai da moita. Vai pra casa, pernoita.
Ciso, juízo. Insiste, desiste.
Corre, espera. Dá chance, já era.

Um ou dois? S ou SS? R ou RR?

Erre!

Errar é preciso
A pior decisão
É ficar indeciso.

o escritor e o pernilongo.


Vida de escritor não é fácil. Você pode fazer qualquer coisa, desde que escreva.

E se você precisa escrever, não dá pra ficar fazendo qualquer coisa.

O fato é que, quando um escritor apanha uma ideia, ele sabe que precisa aproveitar essa chance, se puder, interromper tudo e escrever já. Nem que tenha que desligar a TV na cobrança dos pênaltis, se esconder no banheiro da balada, passar do ponto que ia descer, recusar um copo, um beijo ou uma viagem. Ele tem que parar tudo e escrever o máximo que puder.

Porque uma ideia sem o contexto, não volta fácil. Corre o risco de ir parar na gaveta dos textos que são chamados de inacabados por pura bondade, pois eles estão acabados mesmo. Nunca verão a luz dos olhos do leitor.

Por isso, quando pego feliz naquele ambiente confortável por uma ideia, o escritor se viu obrigado a agir. Desligou a TV, pegou seu notebook e começou a descer a lenha. Queria escrever de uma sentada só, como faziam os grandes mestres que ele citaria se não estivesse tão concentrado naquela ideia.

A mulher o chamou para o quarto. O próximo capítulo da série já ia começar. A bexiga avisava que precisava liberar espaço interno, mas nada o convenceu. Era hora de escrever.

O que o obstinado escritor não sabia era que o veículo que move as ideias entre cérebro e coração, capaz de oxigenar e tingir – o sangue, é claro – , também estava na mira de um ser vivo igualmente obstinado. O pernilongo.

“O” é forma de dizer. Faz um tempo que é de conhecimento quase geral que apenas as fêmeas dos pernilongos picam.

Ela não precisava de muito, apenas o suficiente para maturar seus ovos e contemplar o mundo com mais uma porção de mosquitos a zumbir no ouvido alheio.

Após estudar o quase imóvel escritor através de seus olhos multifacetados, finalmente chegou o momento da grande investida. Acelerando a toda velocidade o pernilongo (ou “a mosquitinha”, como quiser) emitiu seu ruído característico e incômodo, pra não dizer insuportável.

O escritor, contrariado, apenas virou os olhos e busca do seu agressor, sem parar de digitar. O inseto veio com todas as suas armas prontas e uma velha estratégia. Ele toca  a vítima e passa direto, incomodando o suficiente para fazê-la se mover. Só então o danado pode reduzir a velocidade e pousar sorrateiro, sem incomodar nem ser percebido.

Depois, é a hora da mini sanguessuga aplicar seu anestésico sobre a pele e só então penetrar a segunda camada da pele e extrair o néctar da vida, carregado de ferro e enzimas essenciais. E um tanto de vodka também.

É quando finalmente acontece a coceira. Não pela picada, mas pelo anestésico, altamente alérgeno para a grande maioria das pessoas, da qual nosso escritor faz parte.

Assim que sentiu não pode evitar tirar uma das mãos do teclado apenas para golpear em vão o outro braço num tapa ressonante. A intrusa acabou tendo que fugir às pressas para não ser esmagada como muitos de seus parentes. E com menos sangue do que queria.

Round 2. Após um breve tempo de descanso na parede, a valente vampira tenta um novo ataque rasante mas é surpreendida por um aplauso do agora atento escritor, que viu na caça ao invertebrado a desculpa que precisava para postergar sem culpa próxima linha. Não por acaso, no travessão da fala de seu personagem moribundo.

Sim. O escritor também queria sangue, mas não fisicamente. Queria colorir de rubro as as páginas de seu novo romance. Agora, um personagem chave para a trama jazia ali, prestes a dizer suas últimas palavras. E ele não fazia ideia de quais seriam. Mas confiava no seu instinto.

Tal qual fez a pequena criatura que, analfabeta por natureza, não se importava minimamente se suas distrações atrapalhariam a criação de um best-seller, ou Nobel de Literatura que fosse. E não era. Seu instinto dizia que precisava de sangue. E rápido.

Só tendo uma vida curta como a desses seres indesejados você poderia entender a urgência de se conseguir o que quer. Pensando bem, talvez nem assim. O que não falta por aí são humanos desperdiçando seu curto tempo de vida sendo tristes e/ou presos à uma rotina que detestam mesmo tendo escolha, apenas por medo de se arriscar. A maioria de nós seria de pernilongos destinados a morrer sem picar ninguém.

Divagações à parte, o conflito se acirrava e, àquela altura, era cada vez mais difícil saber quem era a caça ou o caçador. A minúscula fazia o seu melhor, entre piruetas e outras acrobacias que a permitiam viver um pouco mais para tentar de novo, mesmo ao custo e muito de sua energia.

Em contrapartida, o escritor já havia desferido uma série de tapas em vão, atingindo paredes, móveis e também o próprio corpo, num espetáculo não menos espetacular. Afinal, o circo não vive só de trapezistas. Um bom palhaço em ação faz a plateia vibrar. Especialmente um como este, amador, mas que estapeia a própria cara como poucos.

Exaustos e pouco certos de seu futuro próximo, finalmente os dois ficaram face a face quando o escritor erguia-se lentamente e deparou-se com sua algoz ali, sobre o seu teclado. Ele deixou o instinto agir num tapa sonoro e fatal. Para a nêmesis voadora e pra algumas teclas inocentes, que também acabaram voando.

Ali estava o pequeno cadáver repleto do sangue alheio. E, a sua volta, um escritor que comemorava a vitória da batalha. Uma comemoração curta, frente ao teclado destruído e um personagem moribundo sem últimas palavras pra dizer.

O incômodo tinha se transformado numa divertida atividade, mas agora, a brincadeira tinha acabado. Ele assumiu seu lugar, limpou os óculos para ler novamente o trecho final da história que acabou tingindo de vermelho, também do lado de fora das páginas.

Respirou fundo. Leu de novo. Sorriu. Gargalhou.

_ Puta que pariu! Inventei uma onomatopeia!

E foi assim que o escritor encerrou o capítulo que viria a ser o mais elogiado de seu livro. Motivo pelo qual incluiu, já na segunda edição, uma pequena e enigmática dedicatória.

Aos incômodos que nos aparecem voando,
prontos para sugar aquilo que nos faz viver
mas que, vencidos, deixam sua marca
na doce esfera dos imprevistos:

a única capaz de nos surpreender a cada final.

de existir.


Desistir
tá errado
Até na grafia

Veja aí
o contrário do sonhado
de tentar mais um dia

deveria ser desexistir

resumindo.


_ A história é essa: ela lembraria dele para sempre. Bastava que ele não lhe negasse seus adorados cookies.
_ Ele era cozinheiro?
_ Não.
_ Ela era pobre?
_ Não e não. Ela era uma página de internet e ele era usuário de webmail.
_ Putz!
_ Que foi? Não gostou? Achei que daria uma boa história…
_ Assim, surpreende e tudo mais, mas cadê os sentimentos? Coisas que marcam a vida? Se fosse um filme, tudo se resolvia num clique!
_ Ué, e quantas pessoas se amam por tanto tempo e depois se esquecem completamente umas das outras?
_ Eu nunca esqueci ninguém que amei.
_ Lembra do nome de todos os amigos que teve até hoje?
_ Lembro! Quer dizer, acho que lembro da maioria…
_ Então! A máquina nunca se esquece, a não ser que seja forçada a isso. Que se delete sua memória, que se deteriorem suas peças, que tirem ela da tomada!
_ Só?
_ Como “só”?
_ Eu acho que passei por mais coisas do que essa sua máquina aí. Tenho direito de ter esquecido meia dúzia de sumidos.
_ Alguém te forçou a isso? Vai dizer que sua mente tem um “delete”? Porque eu vou morrer de inveja. Queria esquecer tanta coisa…
_ Aí é que está: não esqueci porque quis. Então, fui forçada a isso também.
_ !
_ Que foi? Liberei espaço em disco. É automático.
_ ….sabe que eu vou lembrar de você pra sempre?
_ …
_ …
_ Mas se você fizer algum trocadilho com “cookies”, pode ter certeza vai ficar sem.
_ Olha que eu te esqueço, hein!
_ Duvido.

Charles quebrou o pé.


Charles quebrou o pé e disse que foi no futebol.

Charles quebrou o pé numa terça, que é dia de jogo da segunda divisão e pouca gente deixa de vir jogar para assistir.

Charles quebrou o pé na cobrança de escanteio. Sozinho. Nem foi falta.

Charles quebrou o pé e doeu muito, pois, mesmo engessado, não trabalhou quarta.

Charles quebrou o galho do chefe e disse que vinha amanhã.

Charles quebrou o pé e não podia dirigir. Pegou carona e veio de trem.

Charles quebrou o pau porque ninguém queria lhe dar lugar.

Charles quebrou a cara, porque ninguém deu lugar mesmo assim.

Charles quebrou a esquina, lentamente, com suas muletas.

Charles quebrou as regras e foi embora mais cedo na quinta.

Charles quebrou o pé, mas bateu a meta.

Charles bateu na porta porque esqueceu as chaves.

Charles bateu de novo.

Charles quebrou o pé e ganhou muletas e pode forçar a porta de madeira.

Charles forçou-se a acreditar no que via.

Charles quebrou o pé e descobriu que sua mulher quebrou os votos.

Charles quebrou.

Charles forçou a porta.

Charles forçou a barra.

Charles quebrou a cara dele com a muleta.

Charles quebrou o pé e partiu os ossos em três lugares.

Charles ficou com o coração partido.

Charles quebrou uma página da sua vida antes do fim das linhas.

Charles quebrou todos os dias em sexta, sábado e domingo dali pra frente.

Charles quebrou o pé, mas remendou os cacos.

Charles quebrou o pé e até hoje sabe quando vai mudar o tempo.

Charles quebrou o tempo.

Charles mudou.

Charles quebrou o pé direito, mas ainda chuta muito bem de canhota.

autua Judas.


Nada tema
Escolha um tema

Escreve,
Escravo
do expressar

que lhe traz
letras
Imagens
a imaginar

Ditongos dizem tangos
Dizem tanto
E oxítonas oxidam
À sua áspera espera

Escreve.
És breve.
Se atreve!

mas sedes breve
Semibreve

Mais sede.

Não se trema.
Não há mais trema.

tem fogo?


Para quem o conhecia, a pergunta era sempre retórica.

Apesar de ser um fumante habitual, não comungava do pacto secreto das regras não escritas com quem compartilhava seu vício.

Aquele mesmo pacto que antes negava e agora exige o sexo no primeiro encontro, que nos mantém mudos no elevador e que manda todos os motociclistas pararem quando um deles é parte de um acidente.

Zeca sempre negava fogo. E não era na cama. Era no fumo. Seus poucos amigos faziam todo tipo de gozação. Todo duplo sentido já havia sido explorado à exaustão. Como um cara tão normal como Zeca podia ser mesquinho com algo tão banal? Isqueiros, fósforos e até a tradicional brasinha, Zeca, sem explicação, continuava a negar.

Certa noite, num happy hour, um colega que tinha exagerado quase partiu pra cima de Zeca, tamanha sua indignação por obrigá-lo a voltar para dentro do bar para acender o seu cigarro mentolado. Geraldo, amigo de longa data, foi quem acabou salvando Zeca de apanhar. “Calma! Sou padrinho do filho do cara e ele nunca acendeu um cigarro meu!”.

Aliás, era de Geraldo que vinhama maior parte das piadas. “Esse aí compartilha até a mulher, mas não compartilha o fogo!”.

O mistério acabou totalmente sem querer, numa terça-feira das mais comuns e esquecíveis, não fosse aquela pausa das 3 da tarde, quando Zeca e Geraldo saíram de suas mesas no 9º andar e desceram para fumar.

Geraldo bateu nos bolsos e percebeu que tinha esquecido o isqueiro. Expirou com frustração mas nem cogitou pedir o do amigo. Teorizou:

“Já sei qual é a sua. Lá no planeta de onde você veio, compartilhar fogo desvia ser um crime terrível e quando alguém fez isso, milhões morreram. Certo?”.

Dessa vez, Zeca não negou fogo. Sacou de um velho 38 e disparou 4 vezes, à queima roupa.

Lamentou, mas não podia deixar vivo alguém que sabia demais.

Zeca acabou sendo abduzido na fuga. Primeiro, por uma viatura. E, cinco anos depois, por uma espaçonave. Finalmente.

Perguntou ao piloto:
“Por que demorou tanto?”

“Ah, chefia, não é minha culpa. Tiraram muito ônibus espacial dessa linha. Tem que acender um cigarrinho e esperar.”

Zeca sorriu.

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