de existir.


Desistir
tá errado
Até na grafia

Veja aí
o contrário do sonhado
de tentar mais um dia

deveria ser desexistir

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resumindo.


_ A história é essa: ela lembraria dele para sempre. Bastava que ele não lhe negasse seus adorados cookies.
_ Ele era cozinheiro?
_ Não.
_ Ela era pobre?
_ Não e não. Ela era uma página de internet e ele era usuário de webmail.
_ Putz!
_ Que foi? Não gostou? Achei que daria uma boa história…
_ Assim, surpreende e tudo mais, mas cadê os sentimentos? Coisas que marcam a vida? Se fosse um filme, tudo se resolvia num clique!
_ Ué, e quantas pessoas se amam por tanto tempo e depois se esquecem completamente umas das outras?
_ Eu nunca esqueci ninguém que amei.
_ Lembra do nome de todos os amigos que teve até hoje?
_ Lembro! Quer dizer, acho que lembro da maioria…
_ Então! A máquina nunca se esquece, a não ser que seja forçada a isso. Que se delete sua memória, que se deteriorem suas peças, que tirem ela da tomada!
_ Só?
_ Como “só”?
_ Eu acho que passei por mais coisas do que essa sua máquina aí. Tenho direito de ter esquecido meia dúzia de sumidos.
_ Alguém te forçou a isso? Vai dizer que sua mente tem um “delete”? Porque eu vou morrer de inveja. Queria esquecer tanta coisa…
_ Aí é que está: não esqueci porque quis. Então, fui forçada a isso também.
_ !
_ Que foi? Liberei espaço em disco. É automático.
_ ….sabe que eu vou lembrar de você pra sempre?
_ …
_ …
_ Mas se você fizer algum trocadilho com “cookies”, pode ter certeza vai ficar sem.
_ Olha que eu te esqueço, hein!
_ Duvido.

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sua síntese.


Eu escrevi uma canção de amor
Eu escrevi um conto de amor
Eu escrevi uma declaração de amor em forma de conto
E já escrevi tantos poemas de amor que nem me lembro mais quantos são

Não sei dizer
Quantas letras já juntei
Combinei, adestrei, violei
Ou fiz brigarem entre si

E tudo que fiz
Foi tentando dizer
Isso que não se explica

Aí vem você
E me diz tudo com um único abraço

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lá e cá.


Sobre o mar aberto
Sob um céu fechado
O pensamento vaga
Enquanto o corpo se ocupa

Tudo se revela com clareza
Na câmera escura
Feito uma fotografia do futuro
Que se passa como memória

É como reflitir
Ainda que no espelho
É agir sem pensar
Ou assistir acontecer

Querer é tão humano
Buscar é tão automático
Quanto desistir
na menor dificuldade

Tudo isso
Nos aproxima e distancia
Na mais perfeita simetria
Na mais perfeita dictomia

Nada disso
Da poesia ao dia a dia
Há um traço, um ponto
Que vai ou que fica
E qual será?

Todo feito é imediato
Quase sempre fugaz
Todo discurso memorável
é só lembrança e nada mais.

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memórias.


Antes que eu esqueça ainda mais delas, acho que é melhor registrar aqui um pouco do que ainda lembro.

Claro que não estou falando daquela fórmula gasta de dizer o que você mesmo lembra sobre a vida (no caso eu), nem aquelas que você mistura com imaginação para parecerem melhores ou piores do que foram. Nem de falar com a câmera em PB para o Fantástico.

As memórias dos objetos são um pouco menos exploradas mas igualmente gastas, com o diferencial da frieza que lhes é característica.

Algo parecido com o que acontece com a memória dos lugares e dos povos, que acabam sendo para lá de impessoais. E como seria diferente?  

Outras velhas conhecidas são as memórias de personagens. Essas, normalmente, são a melhor parte da história. Os flashbacks de Lost não me deixam mentir.

Bom, então é isso, terminei.

O quê? Está se perguntando sobre o que são as memórias que escrevi, então? Ora, são sobre as memórias que tenho sobre memórias em geral.

Essas, duvido que alguém já fez. Bom… pelo menos não que eu lembre.

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fumaça e espelhos.


mágica
é distrair a atenção 
prática
da imaginação 

(asas de Ícaro) 

a vida é mágica,
dizem 
mesmo que trágica
também  

(asa delta) 

mais um carro parado
em fila no sinal mais alguém
à caminho do hospital 

(asinhas de frango) 

sem mágica
segredo e truque revelam-se
mesmo que machuque

(asas podadas) 

é só fumaça 
dos fogos e tiros 
do escapamento 
do cigarro fedorento 

são só espelhos 
o real, que mente 
para a mente
o virtual, desenvolvido
pra mentir ao desconhecido
e os negros,
de LED e LCD 
desligados sem querer 

(asas de chumbo)   

No prazer,
eu sei
asas de formiga
(que só duram um dia)

No amor,
talvez  
asas de anjos,
(eternas pra quem acredita)

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Charles quebrou o pé.


Charles quebrou o pé e disse que foi no futebol.

Charles quebrou o pé numa terça, que é dia de jogo da segunda divisão e pouca gente deixa de vir jogar para assistir.

Charles quebrou o pé na cobrança de escanteio. Sozinho. Nem foi falta.

Charles quebrou o pé e doeu muito, pois, mesmo engessado, não trabalhou quarta.

Charles quebrou o galho do chefe e disse que vinha amanhã.

Charles quebrou o pé e não podia dirigir. Pegou carona e veio de trem.

Charles quebrou o pau porque ninguém queria lhe dar lugar.

Charles quebrou a cara, porque ninguém deu lugar mesmo assim.

Charles quebrou a esquina, lentamente, com suas muletas.

Charles quebrou as regras e foi embora mais cedo na quinta.

Charles quebrou o pé, mas bateu a meta.

Charles bateu na porta porque esqueceu as chaves.

Charles bateu de novo.

Charles quebrou o pé e ganhou muletas e pode forçar a porta de madeira.

Charles forçou-se a acreditar no que via.

Charles quebrou o pé e descobriu que sua mulher quebrou os votos.

Charles quebrou.

Charles forçou a porta.

Charles forçou a barra.

Charles quebrou a cara dele com a muleta.

Charles quebrou o pé e partiu os ossos em três lugares.

Charles ficou com o coração partido.

Charles quebrou uma página da sua vida antes do fim das linhas.

Charles quebrou todos os dias em sexta, sábado e domingo dali pra frente.

Charles quebrou o pé, mas remendou os cacos.

Charles quebrou o pé e até hoje sabe quando vai mudar o tempo.

Charles quebrou o tempo.

Charles mudou.

Charles quebrou o pé direito, mas ainda chuta muito bem de canhota.

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