intervalo*.

Junho 4, 2009 by bic azul
* Uma homenagem simplista às pessoas que fariam tudo, se fizessem alguma coisa.

Vou abrir minha empresa
Vou voltar a estudar
Vou malhar na academia
Vou parar de fumar

Vou fazer tudo que eu sonho assim que o meu medo passar
…ou que o mês virar

Agora só faltam quinze prestações
Mas talvez eu não viva mais quatro estações.

Vou comprar uma casa
Mas com que salário?
Vou jogar na loteria,
Vou ficar milionário!

Vou fazer algo altruísta
Não vou mais querer ser capa de revista.

Mas vou tentar
Só falta um pouco mais.
Vou revolucionar o mundo inteiro
Assim que entrarem os comerciais.

… (ou talvez vá ao banheiro)

detalhes.

Abril 23, 2009 by bic azul

O cimento que cobriu
aquele pouquinho de terra
que deixava a árvore da calçada
beber quando chovia.

O arco-íris que surgiu
por uns segundos,
quando a tropa de choque
usou a mangueira dos bombeiros
para conter os manifestantes.

O frio na barriga
do primeiro beijo.
O ardor no peito
de uma paixão,
ou de um infarto.

A planta ornamental
que morreu no escritório
à vista de todos
porque não pode pedir
a ninguém que a regasse

O necessitado que morre nas ruas
pedindo a alguém que o ajude

O verso incompleto e amassado
Jogado ao vento
e nele flua como pluma
entre os carros da avenida.

A ânsia de vômito
do primeiro assassinato.
E o brilho do olhar
do quarto, quinto, sexto…

O êxtase do prazer que chegou
E a fugacidade com que se foi
A ordem cumprida contra vontade
E o paciente curado com placebo

Você viu?
Prestou atenção?
Eu estava lá.

tempos modernos.

Março 11, 2009 by bic azul

_ Sabe… – disse Carlos, que tinha uma irritante mania de ser reticente – os celulares… deviam ter, tipo… um aviso nas caixas…

_ Como aqueles fetos mortos dos cigarros? – questionou Pedro, já meio distantes desde o “Sabe…” – ouvi dizer que dá câncer.

_ Não… é… Isso também… – Carlos tomou uma difícil decisão: voltar ao assunto inicial antes que se esquecesse completamente dele – quero dizer… algo mais como aquelas… aquelas telas azuis de propaganda de remédio… ”Se persistirem os sintomas…”

_ É “A persistirem” – Pedro retificou de imediato, mesmo sem ter certeza.

_ É… foda-se. Algo assim.

_ Hmmm – desinteressou-se Pedro.

_ … – irritava Carlos.

_ Dizendo o que? – perguntou Pedro com a leveza suavemente aborrecida dos ausentes. Na verdade, ele percebera que não tinha muito mais o que fazer, além de ter aquela conversa.

_ É… ”Felicidade não incluída”. – concluiu Carlos, com um meio sorriso e um longo suspiro.

_ Com hífen?

_ …. acho que sim.

_ Porque tem essa reforma aí. – disse o distante e perspicaz Pedro.

_ É… é foda.

_ Por que, hein?

_ Ah… Junta um bando de… professores ou algo assim… e falam: “Queremos vendar mais dicionários”, aí…

_ Não, to falando do…. – Pedro não era reticente. É que Carlos não parou de falar.

_ Deve ser tudo culpa da Internet e…

_ Celular. – Pedro concluir a sua frase, não a de Carlos.

_ Isso! … e do celular. – disse Carlos, que se animou mesmo assim.

O silêncio pairou e viu que não tinha nenhum motivo especial. Foi embora.
_ Um aviso na caixa? – não que Pedro estivesse mais atento. Na verdade, a palavra “Celular” ecoou, vagando pela sua mente à procura de algo para se associar. Deu nisso.

_ É… eu acho que tinha que ter…

_ Tinha sim. Que aviso?

_ “Felicidade… não incluída”.

_ Tipo os brinquedos que vinha sem pilhas? Eu ficava mordido com aquilo. – disse Pedro.

_ Ah… Eu também, cara… eu também… – concordou Carlos.

_ Todo mundo! – globalizou Pedro.

_ E o celular… é assim: mil funções… – suspirou o irritante Carlos.

_ O Steve Jobs não para. – Pedro continuava a soltar a primeira coisa que lhe vinha à mente, sem prestar a mínima atenção.

_ … e nenhuma… te abraça. – desabafou Carlos.

_ Acho que por serem pequenos, né?

_ Não é isso…

_ Soube que os japoneses fizeram um aplicativo de iPhone que simula o uma pegada nos peitinhos. – lembrou Pedro.

_ Não é nada disso. Eu não sou idiota. Mas, digo… – Carlos falou sério.

_ Não é idiota. – disse Pedro, convicto.

_ Mas… Pra que serve se…. ninguém te liga? – Carlos encheu os olhos de lágrimas.

_ A tarifa é alta. – disse o óbvio e distraído Pedro.

_ A Juli… ela… ela… me traiu, Pedro. – soluçou Carlos. Cinco vezes.

_ Se vocês tiverem a mesma operadora, vão economizar.

_ Digo… sei que… eu errei com ela.

_ Errar é humano. Perdoar é divino.

_ Mas eu sou… humano – secou as lágrimas – e não vou perdoá-la!

_ Somos o que somos.

_ Foi ela… que quis passar o Ano Novo com os pais dela lá na praia…

_ Ah, o verão.

_ Eu não podia… era meu plantão, poxa.

_ Obrigações primeiro.

_ Aí mandei uma mensagem… “feliz ano novo, amor”. É… o que eu queria dizer…

_ Ah, o amor.

_ Ela leu… e passou a noite toda…. beijando aqueles….. aqueles saradões lá da praia.

_ Traição pérfida!

_ … ei… isso… não é um… pleonasmo?

Agora uma pausa para nosso momento científico:

É comum que duas pessoas percam o fio da meada ao conversar. Especialmente sob o efeito de alucinógenos proibidos no Brasil.

Mas não era este o caso. Em seu estado normal, a mente humana tende a se questionar, às vezes. É uma manifestação, muitas vezes não verbal, que pode ser definida como o fenômeno do “que porra é essa?”.

O fato é que a pergunta de Carlos trouxe Pedro de volta de onde quer que ele estivesse até a pouco, com uma delicadeza digna de um mamute.

Voltemos à nossa animada(!) conversa.

_ Você ta me dizendo que a Ju fez isso contigo porque você passou uma mensagem de “Feliz Ano Novo”?

_ É… – envergonhou-se Carlos – Mas é que tinha um paciente esperando então… acabei não lendo antes de enviar.

_ E daí?

_ Eu tava usando aquele…. T9, sabe?

_ Não. O que tem?

_ Você… nunca usou? Facilita na hora de escrever e…

_ Não sei. Não tenho celular. – disse Pedro, com toda naturalidade.

_ Mas… Não tem?

_ O que você escreveu pra minha irmã, cara?  – Pedro quase se alterou.

_ “feliz com novo amor”.

_ Sem vírgula.

_ É… sem vírgula.

_ Por causa do celular?

_ Isso…

_ Hahahahahahahaha!

_ São as mesmas teclas…

_ Hahahahahahahaha!

_ É sério, porra…

_ Aiai… E por que você não desfaz logo esse mal entendido? – Pedro limpou outro tipo de lágrimas.

_ Ela beijou doze caras!

_ Ao mesmo tempo? – Pedro é fã do Kevin Smith.

_ Escuta… porque você não tem celular?

_ Não sei. Não gosto, eu acho.

_ Mas assim ninguém vai te achar…

_ Você me achou, não foi?

_ É…

_ E eu vim pra chácara.

_ Eu… eu sou um idiota, Pedro… – lamentou Carlos.

_ Não é idiota. – repetiu Pedro, convicto.

_ … – Carlos sorriu em silêncio.

_ A Juli vai rir muito dessa história. Ela te ama. Sabe Deus o porquê, mas ela te ama. – disse Pedro dando um “tapinha” mais forte que o necessário em Carlos.

_ Mas… doze?

_ Quem te disse isso?

_ Sua prima me ligou ontem.

_ É só papo de prima. Vou lá pra dentro. Os pernilongos estão me roendo.

_ Já vou… – Carlos pensou sozinho olhando para o reflexo das estrelas na água, ou através dela, perdido em seus pensamentos.

_ No máximo nove. – Pedro resmungou no caminho para a casa.

_ O QUÊ? – gritou Carlos.

_ NOVELA DAS NOVE! – respondeu Pedro.

[Epílogos são só pra quem gosta mesmo de ler. Continue, se quiser.]

Carlos lembrou de “Titanic”, o primeiro filme que assistiram juntos. Não parece  grande coisa, mas era uma boa lembrança.

Ele jogou o celular na água e ficou feliz. Mas se arrependeu em seguida, porque podia tê-lo vendido no Mercado Livre. Mas teria que conviver com isso.

Quis logo ligar pra Juli e meteu a mão no bolso vazio. Lembrou que Pedro não tinha celular nem telefone na chácara e saltou num mergulho perfeito no lago que tinha a profundidade impressionante de meio metro.

Pedro ouviu o barulho e saiu de casa gritando algo sobre baterias alcalinas envenenando a natureza. Achariam o aparelho no dia seguinte com lama até os chips.

Carlos foi correndo e pingando pra vendinha mais próxima e comprou todos os seis cartões que havia lá. Ela riu e chorou por umas duas horas.

Resolveram morar juntos e passam bem, obrigado. Pedro secou o celular ao sol e ele funcionou direitinho. O dono da vendinha o arrematou pelo preço da compra do mês.

bondade.

Fevereiro 12, 2009 by bic azul

“Me leva pra longe daqui.”, ela pediu. Nada mais justo, mas ele ainda queria ficar. Apesar de tudo.

O risco de permitir-se à bondade é ter que escolher sempre a quem você vai favorecer. Nada é mais ingrato do que o esforço pelo chamado bem comum. Reflita você sobre a relação do povo com o Estado. Ou melhor, pense no destino dos que tentam ser herois.

Como não há nada mais ingrato do que um ex-amor e nem nada mais urgente do que um amor vivo, ele se foi. Mas antes, fez questão de olhar com piedade para aqueles que lhes pagaram o bem com o mal. Entenda: piedade não é misericórdia.

Dos que ficaram, poucos se impressionaram, pois estavam a bravejar, perdidos em rancor.

Apenas um deles entendeu, afinal, o que se passava. E chorou.

Uma senhora, alheia a tudo, quis consolá-lo. Como não tinha um lenço que fosse, ela ofereceu a barra de sua blusa e ele aceitou.

“Bondade sua…”, murmurou ele.

silêncio glorioso.

Janeiro 8, 2009 by bic azul

Já é de manhã.
Eu posso sentir
O toque delicado
Do silêncio glorioso

“Não se apresse”, ele diz
“Desfrute. Essa solidão
Breve e deliciosa
É só sua.”

Os braços e pernas
Que descansam no meu leito
São apenas ilusões
Criadas pelas dobras do cobertor.

Ao contrário da noite
Quando o vazio nos toma
Com dolorida voracidade
Pouco antes de adormecer,
Agora é de manhã.

Acordado.
Em paz.

(o pensamento não se obriga a fazer sentido)

De pé.
Já é hora.
Bom dia.
Boa sorte.

preguiça.

Outubro 13, 2008 by bic azul

_ Oi!
_ .. hum…
_ Houston? Pode me ouvir?
_ E-eu… posso…
_ Então por que você não abre os olhos?
_ Porque eu quero dormiiiiiiiir….
_ Chega de dormir. Ficou até tarde vendo filme porque quis.
_ Pô, tava passando O Talentoso Ripley…
_ (pela enésima vez…)
_ .. e agora eu tô R.I.P.
_ Qual dos filmes? O do Malkovich?
_ Eu sei que tinha o Matt Damon…
_ Conseguiu ver o final dessa vez?
_ Parei naquela cena do piano.
_ Como “cena do piano”?
_ Ah… ele toca um piano e depois sai.
_ Isso é o começo do filme! Os letreiros iniciais nem tinham acabado!
_ É?
_ É, e se você não levantar, eu abro a porta e o Théo vai vir lamber sua boca.
_ Faz isso não…
_ Me dêêêêê motivos…
_ Tira o Tim Maia da nossa cama já!
_ Ué, vai dizer que você não gosta?
_ Não é que eu comprei nas Casas Bahia. Não vai agüentar.
_ Vai acooooorda… Isso vai piorar muito antes de melhorar.
_ É possível?
_ Claro que é… quando o Théo entrar por aquela porta com o rabo em pé…
_ Nãããããããooo…
_ Você vai conhecer o delicioso sabor de Whiskas.
_ Tudo menos isso!
_ Só uma lambidinha…
_ Pôxa, amor… eu tinha umas idéias bem mais interessantes sobre “lambidinhas pela manhã”. Se tivesse me acordado do jeito certo, eu já tava de pé.
_ Ah, é?
_ Aham…
_ Sabe que eu também tive essa idéia?
_ É?
_ Mas alguém aqui desmaiou quando viu o Matt Damon.
_ E o que tem a ver?
_ Desmaiou de calça jeans!
_ (saco…)
_ Se enfiar a cara no travesseiro leva tapa na bunda.
_ Hoje você tá muito cruel.
_ Você não viu nada.
_ Vamos combinar então: conta 5 minutos no relógio e vem de novo, que tal?
_ Não. Hoje é um dia muito importante. Meus pais vão vir aqui e…
_ Viu? Nem é culpa minha. Por mim a gente contava.
_ Já falamos sobre isso.
_ Eu sei… Mas é que eu tô num soninho tão gostoso…
_ Não faz essa carinha…
_ Por favor, por favor…
_ Tá bom, vai. Só mais 5 minutinhos.

(…)

_ Hello… Hello … Hello
_ (suspiro) …
_ Is there anybody in there? … there … there …
_ Tem sim e, definitivamente, comfortably numb…
_ Eu cumpri minha parte, agora é a sua vez.
_ I sayd no, no, no.
_ Agora chega. Você tá passando dos limites!
_ Por causa da preguiça ou pela Amy Winehouse?
_ Ambos!
_ Ah, mas eu tenho um bom motivo…
_ Matt Damon?
_ Não. A calça jeans. Tá ali no chão.
_ Hmmm…. safadinha…
_ Vem cá… vem me acordar do jeito certo…
_ Não fal assim que eu não resisto.
_ Nem tenta…

(…)

_ Hmmm….
_ Mmmm…oh
_ Mmmm… miau?
_ mmmm.. o quê?
_ Eu ouvi um miau. Não foi você?
_ Ih… esqueci a porta aberta.
_ Ah… Théo! Lá vem o homem da casa!
_ Tinha que ser!
_ Sai, gato enxerido! Ménage à trois só quando eu escolher um homem beeeem gostoso.
_ Lá vem você e suas idéias…
_ Não seja preconceituosa.

.ação

Agosto 14, 2008 by bic azul

“Que verdade você quer inventar hoje?”
A pergunta silenciosa
Vem à mente pela manhã

E amanhã, calada
Interrogação transforma-se em mola
A saltar por sobre a mente
(nublando as idéias e memórias)

Se respondida, exclamativa
Ativa o imediato falho
Traço de uma reta só
Encerrado breve

Se reticente, redunda inconclusa
É obtusa e dispensável

Não há ponto final que não o próprio fim.

Em verdade, não há qualquer determinante
De ponto ou ação.

Minto.
Há, sim, um ponto:
O de vista.

uma ficha.

Agosto 6, 2008 by bic azul

Decisões difíceis
Ações, nem tanto

Se sente com sorte?
Não importa:
Faça sua aposta.
(o jogo vale a vida)

Preguiça? Medo?
Ódio? Autopiedade?

O certo. Cru.

O certo. Difícil
de decidir, um pouco
de querer, muito

Saiba:
O primeiro passo, emocionante,
Não carrega terça parte
Do fardo de mais um dia.

Os dados estão rolando
O que você diz?

Decisões fáceis
Ações, nem tanto.

só.

Maio 15, 2008 by bic azul

O raio de sol que atravessou a janela lhe tocou a face, fazendo suas pálpebras se contraírem.

Era tarde de sábado, no outono.

A temperatura quente e agradável desmentiu a previsão do tempo.

Ela fechou os olhos e não viu a escuridão, mas um vermelho vivo e belo.

Em outros tempos, estaria em seu carro, reclamando do trânsito. Anos atrás, no parque com as crianças, ou ainda antes, enfurnada por um dia inteiro num motel com o namorado.

Mas hoje, apenas se levantou e permaneceu ali.

Só sentindo que estava viva.

Só recordando.

Só.

Aquecida e longe da escuridão, ela se sentia segura.

Mas estava absolutamente só. A ponto de não poder ser alcançada pela alegria, tampouco pela tristeza.

Pensou que enfim tinha terminado a sua busca pelo que era verdadeiro e puro.

Era a sensação de apenas ser quem se é, e não dos sentimentos que se tem.

Ela se despiu e esperou. Não precisava mais daquelas roupas.

Sabia que os anos fariam o espelho ser-lhe cruel, mas isso já não importava. A casca não faria a menor diferença – era apenas a locomotiva de desejos e sensações. Não seria mais escrava deles.

Respirou fundo e esperou. O calor se foi.

A noite veio bela e cada estrela a observou com intimidade.

Então ela se despiu novamente, abandonando a carne.

Dos sentimentos, guardou para si apenas a curiosidade e um pouquinho de ansiedade.

Quis logo ver o que havia do outro lado.

ecos e lágrimas.

Abril 28, 2008 by bic azul

Erros consumados,
Fatos passados

Impressos na alma
Voltam à mente sem razão,
No silêncio da calma
De dias em vão.