só.

Maio 15, 2008 by bic azul

O raio de sol que atravessou a janela lhe tocou a face, fazendo suas pálpebras se contraírem.

Era tarde de sábado, no outono.

A temperatura quente e agradável desmentiu a previsão do tempo.

Ela fechou os olhos e não viu a escuridão, mas um vermelho vivo e belo.

Em outros tempos, estaria em seu carro, reclamando do trânsito. Anos atrás, no parque com as crianças, ou ainda antes, enfurnada por um dia inteiro num motel com o namorado.

Mas hoje, apenas se levantou e permaneceu ali.

Só sentindo que estava viva.

Só recordando.

Só.

Aquecida e longe da escuridão, ela se sentia segura.

Mas estava absolutamente só. A ponto de não poder ser alcançada pela alegria, tampouco pela tristeza.

Pensou que enfim tinha terminado a sua busca pelo que era verdadeiro e puro.

Era a sensação de apenas ser quem se é, e não dos sentimentos que se tem.

Ela se despiu e esperou. Não precisava mais daquelas roupas.

Sabia que os anos fariam o espelho ser-lhe cruel, mas isso já não importava. A casca não faria a menor diferença – era apenas a locomotiva de desejos e sensações. Não seria mais escrava deles.

Respirou fundo e esperou. O calor se foi.

A noite veio bela e cada estrela a observou com intimidade.

Então ela se despiu novamente, abandonando a carne.

Dos sentimentos, guardou para si apenas a curiosidade e um pouquinho de ansiedade.

Quis logo ver o que havia do outro lado.

ecos e lágrimas.

Abril 28, 2008 by bic azul

Erros consumados,
Fatos passados

Impressos na alma
Voltam à mente sem razão,
No silêncio da calma
De dias em vão.

múltipla escolha.

Abril 14, 2008 by bic azul

Tente adivinhar
E se já souber
Não precisa falar
Shhh…..

Não se trata de um enigma
Nem da sombra de um estigma

A única resposta verdadeira
É que não há fórmula exata
É questão que não é inteira
É matéria correlata

Mas talvez,
Ao menos dessa vez,
A solução do problema
Seja não criar dilema.

vingança.

Março 25, 2008 by bic azul

No início da noite de uma quinta-feira, Paulo e Rodrigo estavam sentados à mesa do boteco de costume, brindando cerveja em copos embaçados:

_ Saúde!

_ Saúde!

_ Hmm.. puta calor, hein?!

_ É foda. Meu chefe mete a porra do ar condicionado no talo.

_ Putz!

_ A galera me vê andando pro banheiro sem dobrar os joelhos e pergunta: “Que quié isso?”, aí eu falo: “A Marcha dos Pingüins”!

_ Hahahaha. Boa.

_ Hehe.

_ Mas diz aí, Digão: o melhor é a mulherada.

_ Pode crer. Tudo tem uma compensação…

_ Todas peladas, velho!

_ Uma melhor que a outra.

_ E acham ruim quando a gente olha!

_ Acham nada!

_ É…bom…

_ Tsc. Sei não. O Mauro quase se ferrou numa dessas.

_ Também, o bicho fica maluco, porra. Parece que nunca viu boceta!

_ Pior que a mulher dele é uma gracinha, meu…

_ Nem fala…

_ Falando nisso, cadê aquele veado que não chega?

_ Porra, velho… acho que ele não vem, não.

_ Ué? Ele não falou nada…

_ Aqui pra nós: o cara tá passando por uma barra, meu.

_ É mesmo, cara? E você sabe o que tá rolando?

_ Ele e a Fabi tão se separando…

_ Caraaaalho, velho! Que mau, hein!?

_ Nem fala, meu.

_ Mas o que foi que aconteceu?

_ Briga. Parece que começou por causa de uma festa aí…

_ Festa?

_ É! Chamaram eles pra uma festa e o Mauro ficou a fim de ir. Sair da rotina, tá ligado?

_ Lógico. E aí?

_ Aí que a Fabi não queria. Fechou a cara e ficou putaça com ele.

_ Puta merda… ciúme?

_ Que nada! Vingança mesmo. Mulher é cheia dessas: se faz de vítima pra se vingar da diversão do cara.

_ Como assim?

_ Eu acho que ela não tava nem aí se ele ia ou não: só queria se vingar.

_ Hum?

_ Aquele velho esquema: ela fica esperando ele se humilhar dizendo que não vai. Aí ela solta um “pode ir”, se sente dona da situação e pronto.

_ Hahaha. Mulher é foda. E aí?

_ Aí que o Mauro falou que não ia.

_ Ih… dominado.

_ Saca só: ela falou pra ele ir e ele falou que não queria mais ir.

_ Dominado TOTAL!

_ Cê que pensa! Foi na mesma moeda, cara: VINGANÇA! O bichão conhecia o joguinho e botou nela a culpa dele não ir.

_ Hahahaha! BOA!

_ É, boa, mas foi aí é que deu-se a merda: ela já tinha plano pra quando ele saísse e ficou irritada pra caramba. Os dois começaram a discutir…

_ Ih, carai…

_ Rolou gritaria, ressuscitaram umas brigas, quebraram uns bibelôs… Um inferno.

_ Puta merda!

_ Aí, deu no que deu…

_ Que foda, hein!?

_ Foda…

_ E como ele tava quando tu falou com ele?

_ Eu? Falei nada com ele não.

_ Vixi… foi a Fabi que te contou, então?

_ Nem. Não vejo mais aquela mina.

_ Porra… então como é que tu sabe de tudo isso?

_ Eu tava lá, caralho…

_ Como é que é, Paulão?

_ Tava dentro do armário!

_ !!!

_ Porra… vingança, né, meu?! Sabe aquela dívida que o filho da puta do Mauro arrumou no bingo? Emprestei 8 paus pra ele e até hoje aquele cuzão não me pagou. Quatro anos, já!

_ … cara… cê é louco…

_ … agora que eu tô pensando… E se ele resolve sair, hein? Ele abria o guarda-roupa e eu tava FO-DI-DO, né não? Aquele porra só anda armado… Chama mais uma aí.

Eva.

Março 5, 2008 by bic azul

Você acredita em destino? Acha que cada pessoa, ou melhor, cada ser nasce para cumprir um papel? Que mesmo as mais pequenas ações têm uma finalidade dentro de algo maior? Ou é tudo obra do acaso? Somos sempre nós os autores de cada uma de nossas escolhas?Eu não sei. Acho que não tive tempo suficiente de saber. Talvez nenhum de nós tenha.

Neste momento, sei apenas que sou Eva. E que tenho algo a fazer.

Escolha? Acaso? Destino? Eu não sei dizer. Assim como não saberia dizer como acabei aqui.

Juro que me encantaria por essa paisagem idílica, mas sei que ela não vai durar. Tudo isso é apenas o cenário do ato que protagonizo.

“Éden”, me disseram. “Éden” ?

Ando pela relva verde e seca, entre as mais belas árvores, à procura de uma em especial.

Ela está onde deveria. Eu a encontro sem dificuldade. É perfeita como tudo aqui. Perfeita demais.

Respiro fundo e me aproximo.

Maldição! Eu não deveria estar aqui.

Eu ainda tenho escolha. Não precisa ser assim!

Uma voz surge por trás das folhagens. Ela fala comigo.

Eu não preciso prestar atenção para responder o que sei de cor. Estava escrito.

O que eu preciso é pensar. Posso fazer diferente!

Posso, mas ouço…

Filosofia barata: bem e mal, homens, mulheres e deuses, a brevidade da vida, a carne, os desejos…

Desejos…

Ele consegue minha atenção.

Como poderia ser diferente? Estou certa de que será assim até o fim dos tempos: o que moverá os humanos é o desejo. Especialmente, nós, mulheres.

Somos criaturas do momento. Assim como o desejo, o prazer e a paz.

(…)

Como se materializa um desejo?

Não por muito tempo, é claro.

Uma maçã. Que chavão…

Vermelho é a cor da fruta e ela é tentadora.

Pego, sinto. É firme.

Mordo com vontade. Gostosa, suculenta.

Uma gota generosa de seu sumo doce acaba escorrendo dos meus lábios pelo queixo e chega ao pescoço causando um arrepio que me faz fechar os olhos.

Então me vejo. O que estou fazendo? Não..! Eu estou seguindo o script!

Abro os olhos, confusa, mas ciente de que ainda posso desistir. Sigo meu instinto de fugir.

Recuo e sinto o meu corpo se chocar contra o dele.

De onde ele veio?!

Droga! Eu sabia o tempo todo que ele estava ali.

Mas a surpresa me faz deixar a maça cair de minha mão. Ele a toma em pleno ar e a abocanha vorazmente, fixando seus olhos aos meus.

É o momento.

É o desejo.

Antes que eu possa esboçar qualquer reação, ele me beija longamente e eu correspondo.

Suas mãos tocam meu corpo sem nenhum pudor. Experimenta texturas, intensidades, regiões e fluídos.

Os corpos que ainda há pouco eram desconhecidos agora se entrelaçam e se exploram de todas as formas.

Eu me exibo. Ele gosta. Me posiciona, direciona e eu me deixo conduzir.

Não há limites. Só há momentos.

E no momento em que me entrego é que o sinto por completo.

Só o que importa agora é sentir estes movimentos. Só o que importa agora é aproveitar este momento.

O prazer absoluto. E fugaz.

Desfalecemos juntos na relva. Saciados, exaustos.

Nos olhamos por algum tempo e eu experimento a brevidade da paz, outra criatura do momento.

Eu quase adormeço, mas um grito amplificado me põe em alerta.

Não… não é uma condenação. Fizemos exatamente o que ele queria. O grito é apenas imperativo. “Corta!”, ele diz.

“Corta!”, e eu não sou mais Eva. Mas meu nome não tem nenhuma importância.

Sinto seu corpo se mover sobre o meu e gentilmente me afasto, depois me levanto.

A assistente traz algo para que eu possa me cobrir. Que diferença faz? O que todos nesta sala ainda não viram?

O diretor fala sem parar. Não ligo para elogios rasgados. Não acredito neles. Se acreditasse, não ligaria também.

O que me importa se a serpente será feita em computação gráfica ao invés de um boneco de pano? Foda-se se a foto da cena estará estampada na capa do filme.

“Éden”, me disseram. “Éden”!

Quando dou uma pausa na minha seção de autopiedade, ele já está a caminho do chuveiro quando é questionado sobre a “atuação da estreante”.

“Inspirada…”, ele diz meio sem-graça.

Pela primeira vez, desde que o fim da cena, eu sorrio.

Destino? Acaso? Escolha? Eu não sei.

Mas acho que um deles trouxe algo de bom pra esta criatura do momento.

Melhor tomar um banho.

de manhã.

Fevereiro 19, 2008 by bic azul

Ainda não eram nem 7 da manhã e o movimento estava bastante intenso numa certa padaria paulistana:

_ Esse croissant é de quê?

_ É presunto e queijo.

_ Me vê um de queijo, então.

_ Não, não. É presunto e queijo…

_ Oi?

_ Presunto e queijo.

_ Ah, tá. Então vê um de presunto.

_Travessões

Janeiro 30, 2008 by bic azul

Olá, visitante.

Eu sou o bic azul e resolvi escrever este post para comunicar algumas mudanças pelas quais o Absurdos & Abstratos vai passar em breve.

Acalme-se. Longe de “trair o movimento punk”, minha pequena página está para abrir mão de algumas de suas auto-infligidas clausuras.

Eu explico: a partir desse post, além de contos, crônicas e poesias - sempre de autoria própria, como publico desde de 2006 -, estou inaugurando uma nova categoria. Os Travessões serão posts como esse, em que falarei diretamente com você.

Não, não é para contar que “hoje peguei o maior trânsito na marginal…”. De modo algum. Evasão de privacidade não é a minha. Apesar de estar bem aquém da comparação, não posso deixar de citar Pessoa, que ainda deixa muita gente intrigada pela profundidade de sua obra em contraponto à vida relativamente calma que levava. A quem quiser falar das obras de Jack Kerouac ou de Henry Miller e suas vidas aceleradas ou fodidas, boa sorte.

Ah, sim, voltemos às clausuras. Esse é o assunto que quero comunicar neste post. Bom, essencialmente, o site permanece como uma página de letrinhas só minhas, mas o modo de exprimi-las… bom, teremos novidades libertadoras.

A primeira fica por conta da parceria com o grande Gus Morais, ilustrador e amigo que está preparando quadrinizações de alguns contos já publicados. Basta passear pelo blog do rapaz para você ficar tão ansioso quanto eu. A novidade, você vai conferir tanto lá, como cá, na categoria “Quadrinhos”.

A segunda novidade também é uma parceria. Eu e meu velho amigo Israel preparamos o que espero ser a primeira de muitas poesias musicadas e que deve tocar aqui, também em breve. Usando apenas tecladinhos antigos, ele conseguiu criar melodias muito bacanas. Esta será a categoria “Músicas”.

E a última é uma empreitada solitária, por enquanto. Trata-se de contos narrados. Pessoas próximas já me pediam isso desde que eu me lembro. “Eu gosto mais quando você lê” é frase corriqueira.

Como não sou profissional da voz, inicialmente me acanhei com a possibilidade. Entretanto, após ouvir que Drummond, que também o fez sem ser, criei coragem, mesmo estando aquém desta comparação também. Dylan Thomas também declamava suas fabulosas poesias, mas a voz do sujeito era sensacional. Na minha imaginação, queria algo assim, ou como os Contos da Meia-noite, mas minha total inaptidão para edição de áudio vão fazer deles algo bem comum, parecido com os que me são próximos escutam.

Claro que, se você tiver algum conhecimento e quiser colaborar, será muito bem-vindo. Basta entrar em contato. O resultado você vai conferir na categoria “Dois Pontos”.

É isso.

Um abraço e obrigado pela visita.

8 anos.

Janeiro 21, 2008 by bic azul

Felipe sabe que não devia estar desobedecendo ao seu pai. Ele mesmo sente os como se seus olhos queimassem enquanto olha para luz flamejante da solda, mas está encantado com aquilo. Ele não sabe para que serve. Seu pai explicou que era algo como “uma cola para ferro”. Como assim?

Mas agora ele não via nada além do brilho e não poderia ouvir nada além do som elétrico e assustador.

Pensava no quanto a máscara que seu pai usava o fazia parecer um super-herói quando foi notado.

Seu pai parou de soldar e ele quis correr, mas agora não conseguia enxergar nada além de uma mancha branca. Ficou desorientado e tropeçou sozinho dando, caindo com o rosto virado para a areia quente do meio-dia. Chorou.

Seu pai desceu poucos degraus e atirou o equipamento ao chão para socorrer seu único filho. Limpando a terra de seu rosto e dos seus cabelos, ele o colocou em seu colo.

_ Por que você faz isso? - disse ele, franzindo a testa. - Eu sei que você tem olhos atentos, mas precisa me obedecer. Preciso dos seus olhos atentos, e não queimados.

Seu choro, que era mais pelo susto do que pela dor, foi desaparecendo, mas suas lágrimas não. Estas agora eram de tristeza: ele o tinha decepcionado.

Então seu pai secou seu rosto com a manga da camisa e sorriu, mas Felipe não viu o sorriso. Ainda estava com a cabeça abaixada, contraindo seus lábios entristecidos.

Só quando o seu nariz começou a escorrer e seu pai limpou com mesma manga da camisa, Felipe levantou a cabeça e voltou a ter a certeza que ele o amava.

_ Vá brincar lá dentro. Eu ainda tenho muito trabalho pra fazer aqui.

_ Eu arrumo as coisas pra a gente ir.

_ Não. Não hoje. Não dessa vez. Agora vá.

Felipe não entendeu, mas se foi, cauteloso, já que sua visão ainda não estava plenamente restabelecida.

(…)

Quase como que por encanto, às seis da tarde o céu escureceu rapidamente. Felipe não estava acostumado com isso. Ficou muito apreensivo e amedrontado. Queria sair de lá. Para qualquer lugar que fosse.

Então seu pai entrou no abrigo. Os últimos raios solares desenharam sua silhueta. Felipe o via forte e confiante, mas também exausto. O fato é que seu rosto inseguro era acolhido pelas sombras e Felipe via naquela forma, apenas aquilo que imaginava.

Ele pendurou mais um gancho na bateria fazendo a luz se acender. Felipe não tinha mais medo.

Seu pai então se sentou na bancada, ao lado do rádio desmontado, e disse:

_ Vamos dormir aqui esta noite.

Passaram as grossas correntes pelas fendas nos portões e trancaram-se.

_ Temos de economizar. - disse o Pai de Felipe enquanto apagava a luz.

Não demorou para que ouvissem uivos que não eram do vento. Primeiro distantes e depois mais perto. Felipe apenas fechou os olhos e recostou-se sobre o peito do pai, que lhe tampou o ouvido.

Felipe respirou mais fundo e pegou no sono, em paz.

Os uivos ficaram mais intensos, mas o pai de Felipe não se abalou. Nem mesmo com o som ressonante do ferro, após o primeiro e forte impacto. Adormeceu acariciando os cabelos do filho:

“Vai demorar, mas se eles vão desistir.” - pensou e então olhou para o Felipe uma última vez e concluiu - “Mas enquanto ele estiver aqui, eu não vou desistir.”

(…)

Na manhã seguinte, Felipe acordou seu pai contando que havia sonhado com a mulher mais linda que já viu. Enquanto seu filho contava, ele finalmente sentiu-se aliviado da culpa de não ter nenhuma foto da mãe do garoto e sorriu.

da espera.

Janeiro 7, 2008 by bic azul

Foi na sala de espera da dentista que viu um rosto conhecido na capa de uma revista velha.

Era uma foto de detalhe numa revista de famosos, daquelas que ele sabia que ela nunca se interessou em folhear. Ao lado dela, estava um figurão ao qual ele era apresentado ali mesmo, com seu nome e sobrenome, logo abaixo da foto.

Não foi uma apresentação cordial. Ele o encarou notando os detalhes possíveis para uma foto daquele tamanho e não se apresentou de volta.

Ingenuamente, tocou a imagem dela com a ponta dos dedos. Não era como naquelas cenas de filmes, nas quais o ator que toca delicadamente a foto e a trilha sonora suave nos fazem imaginar que o personagem realmente sente a tez de quem ama apenas com a ternura de sua saudade.

Ao contrário, textura era dura e gasta. A trilha era uma música ambiente baixa demais para evitar que se ouvisse o irritante som do motorzinho furioso.

Pensou apenas no quanto a foto não fazia jus à beleza dela. Beleza esta, que agora posava ao lado de alguém que não era ele.

Ele a teria registrado melhor. Fotografaria o seu melhor ângulo.

E aquelas roupas? Parecia que existia um rigoroso manual sobre como se vestir numa capa de revista de famosos. As mesmas cores, os mesmos óculos. Ela não se parecia em nada aquela menina que perdia a compostura com poucos copos e dormia apenas com uma camiseta preta e surrada da capa do álbum Ten, do Pearl Jam.

“I know someday you’ll have a beautiful life/I know you’ll be a star/In somebody else’s sky, but why, why/Why can’t it be, oh can’t it be mine?”

Uma lágrima rolou pelo seu rosto. Quanto tempo fazia desde a última vez em que se viram, apressados, naquela avenida? Será que eles já estavam juntos?

Ele se lembrava. Não trocaram sequer uma palavra. Ela estava com uma amiga que falava bastante. Ela apenas o olhou indecisa, tentou sorrir mas não conseguiu.

Sozinho, ele sorriu para ela, mas se arrependeu logo em seguida. Sabia que seus lábios carregavam o mesmo pesar que doía forte em seu coração.

Doía tanto quanto agora voltava a doer naquela sala.

Começou a buscar a data da publicação em meio a toda aquela informação inútil. Foi quando a porta se abriu e seu nome foi chamado. Fez um último esforço na procura, mas poucos segundos depois, se levantou sem que tivesse notado as letras miúdas ao lado do código de barras.

Entrou no consultório hesitante. A dentista tentou confortá-lo, acreditando que seu comportamento era fruto do medo do tratamento doloroso, e mentiu.

Durante mais de 2 horas, ele sentiu a força da dor física tomar partes de seu corpo que ele nem se lembrava que tinha.

Seus olhos suplicavam piedade. Mesmo aplicada por várias vezes, a anestesia acabou tendo pouco ou nenhum efeito. Sentia sua carne e ossos indefesos sendo tocados pela fúria dos metais em busca de tecido cariado.

Instintos de sobrevivência transformavam sua dor em ira. Visualizou um plano em que matava a doutora e fugia. Não era um bom plano e ele não seria capaz de fazê-lo, mas o fato é que ele simplesmente precisava fazer algo para acabar com seu sofrimento. Qualquer coisa.

Antes que ele esboçasse qualquer reação, a dentista parou. Desculpando-se, ela voltou a dizer que era necessário realizar o procedimento inteiro num mesmo dia. Tentou puxar conversa, sem nenhum sucesso, enquanto juntava as substâncias para selar o que restou do dente.

Terminado o serviço, ele saiu do consultório desolado com uma respiração intermitente.

Com os olhos marejados buscou, por alto, a revista na sala de espera e a encontrou nas mãos de uma criança jovem demais para saber ler. Chamada em seguida, ela jogou-a na cadeira e entrou no consultório.

Sem se importar, ele virou-se e saiu sem olhar novamente para a direção em que a revista estava. Seria inglório para seu amor perdido defrontar-se com uma dor maior que a dele.

a despedida.

Dezembro 18, 2007 by bic azul

Já era quase meia noite. Como sempre, ele estacionou a poucos metros da casa dela, mas dessa vez não desligou o carro e ficou a observando calado alguns instantes, esperando que ela quebrasse o silêncio:
_ Adorei a noite.
_ Eu também.
_ O jantar estava excelente!
_ Que bom que você gostou.
_ Você sabe mesmo como escolher um vinho.
_ Só não sei parar de bebê-lo…
_ Hahaha! Seu bobo! Eu te amo, sabia?
_ Eu também te amo, linda.
_ Adoro quando você mente pra mim.
_ Eu sei, hahaha.
Deram um beijo longo. As mãos dele tentavam percorrer o corpo dela, que então, o abraçou.
As carícias ficaram mais intensas e então soltaram um do outro como num susto.
_ Melhor parar… melhor parar…
_ … também acho.
_ Ou não? - ela sorriu convidativa.
_ Estamos no meio da rua…
_ Isso é verdade.
_ Eu te ligo amanhã.
_ E se…
_ Se?
_ Você subisse só um pouquinho… eu tenho um vinho excelente aí.
_ Já chega de vinho para mim hoje.
_ A gente pode ficar mais a vontade…
_ Acho melhor não… hoje é segunda.
_ Desde quando você liga pra isso?
_ Desde que inventaram as malditas videoconferências com a matriz lá do Rio. Eles sabem que hora eu cheguei e ainda conseguem ver minhas olheiras.
_ Maldita tecnologia!
_ Maldita…
_ Tem certeza?
Ele ergueu os ombros e cerrou os lábios.
_ Então está na hora do senhor ir dormir. Nada de ficar ensaiando trechos do relatório até tarde da noite, viu?
_ Não prometo nada…
_ Eu sei…
Beijaram-se novamente. Dessa vez com uma volúpia aflita dos que sabem que conterão seus desejos. Lentamente, ela deixava escapar o lábio inferior dele que estava entre os seus, virando-se um pouco:
_ Não me provoca…
Ele interrompeu o beijo pouco depois e respirou fundo enquanto a olhava em silêncio.
_ Eu detesto quando você me obedece.
_ Eu sei…
_ … se cuida.
_ Você também.
_ Me liga amanhã?
_ Claro.
_ Então, tchau, amor.
_ Tchau, amor.
Fechou a porta na segunda tentativa e ergueu a mão ao se despedir dele, que sinalizou de volta sorrindo.
Ela adentrou pelo portão de ferro, depois pela porta de vidro que dava para o saguão principal e subiu pelo elevador até o 9º andar acompanhada das incertezas e expectativas que seguem os amantes.
Ele engatou a primeira marcha e parou no primeiro semáforo, depois de duas quadras, sempre atento a rua já sem movimento. Pegou o celular do porta-luvas e acionou a rediscagem automática.
_ Oi, amor. Tudo bem… Olha, já estou chegando, tá? … Preparou, é? Hm, que delícia… Me espera, então… vou te amar como nunca…. outro. Tchau.
Fechou o telefone e expirou, aliviado:
_ Putz… Ainda bem que deu tudo certo. Se minha amante desconfia que eu dispensei ela pra transar com a minha esposa, eu tava fodido…